O ônibus que “cuspia” gente

Mara Rovida

Muito sol e calor, suportáveis apenas porque naquelas bandas o vento é constante e muito forte. Tanto é verdade que sua presença já virou alvo de exploração econômica. Por todo lado que se olha, é possível observar os gigantes moinhos de vento como na terra quixotesca da narrativa épica. Mas, estes giram a todo momento suas hélices metálicas que podem ser controladas por mãos humanas para estarem sempre voltadas na direção correta, aquela em que o vento sopra forte e transforma seu movimento natural em energia para abastecer lares e indústrias.
Bem mais perto do solo calorento que parece derreter sob o sol forte de 35˚C nesse fim de inverno, ficam os usuários do transporte coletivo. Dizem que a passagem cobrada é uma das mais baratas do País, mesmo assim parece cara para a população que tem acesso à energia eólica de “primeiro mundo”, mas não tem salário de europeu.

Vejo ali, bem pertinho, o ponto de parada de ônibus, com uma cobertura metálica que nada pode contra os raios solares dessa faixa quase central do planeta. A rua estreita parece fácil de ser atravessada, mas em pouco tempo percebo que não é bem assim. À menor menção de atravessar, vejo que os carros aceleram ainda mais forte num movimento que parece dizer: não se atreva! Até sinal de luz me mandaram com os faróis altos, desnecessários naquela hora do dia, para indicar: fique onde está e recolha-se a sua insignificância de pedestre!

Com faixa ou sem, é preciso esperar que o fluxo de veículos dê uma folga para que eu atravesse e alcance o ponto de ônibus. Assim que consigo chegar, observo uma cena que vai se repetindo ao longo do trajeto em cada parada e fica ainda mais gritante quando chego ao famoso terminal urbano. Ali podemos pegar qualquer ónibus sem pagar a tarifa novamente. A integração do sistema é permitida por aquele bolsão onde ônibus de todo canto entram e saem num balé ininterrupto de freadas e arrancadas.

Ele mal para e as portas são abertas. Mesmo antes desse movimento ser finalizado, um grupo de pessoas “salta fora” do coletivo, numa rapidez alucinante. A sensação é a de que eles foram expulsos, empurrados, chutados, mas não! Eles é que saltaram numa pressa compatível à do motorista que já está engatando a primeira. Revejo a cena uma dezena de vezes e começo a crer que aquele veículo tem algum poder sobrenatural. As portas funcionam como bocas nervosas que a todo momento cospem, de forma pouco discreta, uma massa qualquer que quando observada bem de perto nos damos conta: é gente!
Pequenos ou grandes, ágeis ou vagarosos, adultos ou crianças, todos estão ali misturados numa massa que é precipitada pela boca nervosa do coletivo. É inegável, aquele ônibus cospe gente!

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