Casa de urubu

Mara Rovida*

 

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Um solavanco e paramos. Sinal sonoro e as portas abrem. Estouro de boiada em direção às escadas rolantes…desligadas, subimos assim mesmo. Segundo pavimento, catracas e saída. Mais escadas, mas agora são comuns.

Um degrau. Oia a lupa, oia a lupa. Outro degrau. Pra lê a bula do remédio. Outro degrau. Pra lê a bíblia. Outro degrau. Pra lê o jornal. Mais um degrau. Oia a lupa, oia lupa. Voz doce de menina mistura-se à imponência masculina. Caça-palavra, palavra cruzada, um real. Os sotaques se diversificam. Sufler, dois por cinco. As ofertas também. Amendoim quentinho; morangos cobertos com chocolate; trufa, um real.

A linha preta no entorno da saída da escada marca os territórios. Pra dentro da linha, os urubus podem prender, pra fora não. Segurança do metrô paulistano é imponente, usa uniforme negro e cassetete na cinta. Intimidam torcedor na saída do jogo, prendem ambulantes nas estações e trens. Mas, não podem agir da linha preta para fora.

Nessas ruas, apenas gente. Carro não passa, moto não entra, só pedestre, ambulante e pombas, muitas pombas. À sombra da catedral de abóbodas verdes, a vida ferve. Gente que passa, gente que vende, gente que procura….emprego, uma melhor sorte, uma carteira perdida ou a se perder.

Contraste sonoro, do lado de lá da soleira da porta imensa, o silêncio gelado do santuário romano; do lado de cá, o burburinho da vida urbana. Mais adiante, linha de trólebus, carros e motos. Do outro lado, um labirinto de ruas interditadas aos automotivos, só gente e muita gente.

Compro e vendo ouro. Atestado médico. Chapa do pulmão. Vaga para recepcionista….os  homens-placas e seus anúncios se misturam aos passantes. Uma roda se forma pra ver o encantador de cobras…meia hora depois e nada de cobra, ela não existe. Ao fundo, a trilha sonora andina e as freadas dos trólebus bem longe.

Parece que vai chover. Ninguém mais vende sufler, agora a oferta é única. Guarda-chuva, tem de cinco e de dez. A chuva começa, as ofertas aumentam e os pedestres correm.

Estação lotada. Fila pra passar a catraca. Aperto. A escada rolante desligada. Aperto. Um mar de gente. Aperto. Aqui dentro ninguém vende nada, é a casa dos urubus.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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