Drama em trânsito

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Mara Rovida*

O vento crescente anuncia, o trem se aproxima. Na plataforma, todos se preparam para entrar o mais rápido possível e, assim, garantir um lugar onde se recostar. Ana Maria consegue um bom espaço para segurar e já se dá por satisfeita, mas a vida pode ser melhor, pode ser surpreendentemente boa. A senhora sentada a sua frente se levanta no mesmo instante em que o trem começa a se movimentar. Uma vaga, só para ela, nos tão disputados bancos sem-preferência.

Bolsa no colo, sacola nos pés. Agora é só esperar uns 20 minutos até a baldeação. Podia pegar o livro, aquele que a vizinha emprestou. É da Zibia, um romance espírita lindo, segundo a Carlinha. Ela frequenta um centro na rua da casa delas, no Jaçanã, e sempre empresta uns livros pra Ana Maria passar o tempo enquanto vai e volta do trabalho.

O livro estava bem às mãos e, quando ela o tira da bolsa, percebe aquele olhar. Seus olhos cruzaram com os dele durante um milésimo de segundo, mas foi o suficiente para que o estômago ficasse levemente embrulhado; aquela coisa de borboletas dentro do ventre se debatendo.

O trem chacoalhava os corpos em todas as direções. Em alguns momentos frestas preciosas se abriam deixando o espaço livre para encontrar novamente aqueles lindos olhos verdes. O rapaz trazia junto de si um case de instrumento musical; certamente envolvia um violão, pelo tamanho e formato. Foi o que deduziu Ana Maria. A moça já começava a imaginar vários detalhes da identidade do seu mais novo amor. Deveria ser músico nas horas vagas, tocava rock e adorava praia. Provavelmente trabalha em uma loja de instrumentos musicais ou algo parecido. Era solteiro, mas estava a procura de uma namorada; e acabara de encontrar.

Ana Maria se derretia toda, enquanto olhava seu amado pelas brechas entre os corpos que se avolumavam cada vez mais. Ela percebeu que precisava fazer alguma coisa, afinal desceria logo e não podia perder a chance de conhecer seu grande amor. Mas, antes, ela tinha de ter certeza de que era realmente correspondida. Foi então que viu um lindo sorriso iluminar o rosto – entre um corpo e outro – do belo rapaz. Sim, ela era amada.

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Sua felicidade era tão evidente que as pessoas ao redor olhavam. “Que olhem, não me importo. Sou amada e é isso que conta.” Nesse exato momento ele começa a se movimentar, se espreme entre corpos pendurados e amontoados no corredor e se move em direção à ela. Seu rosto continua iluminado por um sorriso um tanto maroto e cheio de intenção. Ana Maria sente o coração disparar, as mãos começam a suar frio, mas ela se contém e vai abrindo um leve sorriso em resposta. Quando ele finalmente chega a seu lado, a voz da leitora de livros espíritas fica presa na garganta. Ele se abaixa e dá um beijo na boca…..da moça ao lado.

O rosto pega fogo. Ondas frias sobem pela espinha. Pequena, miúda, diminuta. Vontade de virar vapor. Ainda bem que chegou a estação onde Ana Maria faz a baldeação. Estouro de boiada e lá se vai a moça sonhadora espremida pela multidão e pela desilusão.

 

 

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