Estudo indica que passageiros ganharam 38 minutos por dia com faixas exclusivas

Estudo realizado pela CET também indica que a velocidade dos ônibus nas faixas continua alta e que passageiros ganharam 38 minutos por dia com as vias exclusivas

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), concluiu nesta sexta-feira (20) um balanço anual sobre a influência das faixas exclusivas para ônibus no trânsito da capital. O estudo indica que os passageiros ganharam, em média, 38 minutos por dia em relação ao ano passado. O órgão analisou um universo de cerca de 3 milhões de usuários do transporte coletivo. O ganho geral foi de 1,9 milhão de horas/dia.

“Nós estamos devolvendo para as pessoas o que elas têm de mais precioso, que é o tempo livre. Então, cada usuário de ônibus ganhou neste ano 38 minutos por dia para utilizar como quiser, estudando, no lazer, junto à família, com os amigos. Isso é muita coisa”, afirmou o prefeito Fernando Haddad, durante evento na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Vila Mariana. 

O levantamento, de acordo com a CET, levou em consideração as velocidades médias praticadas nas faixas exclusivas, o tempo de deslocamento dos paulistanos dentro dos ônibus e também o impacto da lentidão nas vias – antes e após a implantação das faixas. 

Velocidade

A atualização do estudo da velocidade média desenvolvida nas faixas exclusivas indica um aumento de 45,1% nas vias segregadas. O relatório leva em consideração um universo de 291 Km de faixas implantadas. O início da medição foi a partir do dia 28 de novembro de 2013 até o consolidado da segunda-feira, dia 16/12. A velocidade aumentou de 14,2 para 20,6 Km/h. 

A companhia também fez um mapeamento da implantação das faixas exclusivas este ano. O local onde foi registrado o maior número de ativações foi a Região Leste, com 117,9 Km de vias exclusivas para o transporte público, o que representa 40,5% do total. 

Lentidão na cidade

De janeiro a novembro deste ano, a média das lentidões máximas na cidade chegou a 142 km. Para o mesmo período do ano passado, a medição alcançou 132 km e, em 2011, de 116 km. 

 

Lentidão em vias com faixas exclusivas:

 

Corredor 23 de maio

A lentidão medida nas vias que receberam faixas exclusivas indica que houve uma acomodação do trânsito em geral. No Corredor 23 de maio/Rubem Berta/Moreira Magalhães, por exemplo, a cidade registrou crescimento de 1% na lentidão em agosto que rapidamente caiu para 6% em outubro. 

É importante destacar que este eixo vinha apresentando tendência de crescimento desde períodos antes da implantação da faixa. De julho a agosto, por exemplo, o crescimento foi de 15%, ou seja, de cerca de 11 km de vias congestionadas para mais de 13 Km em agosto, dias antes de a CET ativar o primeiro trecho da faixa exclusiva deste eixo. 

Para a análise do trânsito abaixo é importante levarmos em consideração que no dia 16 de setembro o trajeto contava com 0,3 Km de faixa exclusiva e, em 5 de agosto, com 10,4 Km. 

 

 

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Lei restringe o uso de aparelhos sonoros em transporte coletivo

LEI Nº 15.937, DE 23 DE DEZEMBRO DE 2013 (PROJETO DE LEI Nº 147/12, DA VEREADORA SANDRA TADEU – DEMOCRATAS)
Proíbe o uso de aparelhos sonoros ou musicais no interior de veículos de transporte coletivo nas condições que especifica e dá outras providências.
FERNANDO HADDAD, Prefeito do Município de São Paulo, no uso das atribuições que lhe são conferidas por lei, faz saber que a Câmara Municipal, em sessão de 27 de novembro de 2013, decretou e eu promulgo a seguinte lei:
Art. 1º Fica proibido, para fins de preservação do conforto acústico dos usuários e combate à poluição sonora, o uso de aparelhos musicais ou sonoros, salvo mediante o uso de fone de ouvido, no interior de veículos de transporte coletivo, públicos e privados, independentemente do órgão ou ente responsável por sua administração, que circulam dentro do Município.
§ 1º A proibição constante do “caput” abrange os ônibus, micro-ônibus, vans, peruas, lotações e todos os tipos de veículos sobre trilhos.
§ 2º Aplica-se a proibição contida no “caput” aos aparelhos celulares, quando utilizados como aparelhos musicais.
Art. 2º Quando constatada inobservância do preceituado no art. 1°, serão adotadas, na ordem elencada, as seguintes medidas:
I – o infrator será convidado a desligar o aparelho;
II – em caso de recusa de desligar o aparelho, o infrator será convidado a se retirar do veículo;
III – caso frustradas as medidas previstas nos itens I e II, será solicitada a intervenção policial.
Art. 3º É obrigatória a afixação de placas, no interior dos veículos de transporte coletivo abrangidos pela presente lei, em letras de formato e tamanho legíveis, contendo o número da presente lei, a proibição nela contida e o telefone do órgão municipal responsável pelo transporte no Município, com os seguintes dizeres:
“É proibido o uso de aparelhos sonoros ou musicais dentro deste recinto, salvo mediante uso de fone de ouvido.
Os infratores serão convidados a desligar seus aparelhos e retirados do veículo, em caso de recusa, nos termos da Lei n° de de de 20 SPTrans – ligue 156”
Art. 4º (VETADO)
Art. 5º O Executivo regulamentará a presente lei, no que couber, no prazo de 90 (noventa) dias, a contar da data de sua publicação.
Art. 6º As despesas decorrentes da execução desta lei correrão por conta das dotações orçamentárias próprias, suplementadas se necessário.
Art. 7º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário, especialmente a Lei nº 6.681, de 21 de junho de 1965.
PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, aos 23 de dezembro de 2013, 460º da fundação de São Paulo.
FERNANDO HADDAD, PREFEITO
ROBERTO NAMI GARIBE FILHO, Respondendo pelo cargo de Secretário do Governo Municipal
Publicada na Secretaria do Governo Municipal, em 23 de dezembro de 2013

O trânsito a transformou, ou teria sido a vida?

Significado das placas de transito

 

Mara Rovida* 

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Sempre foi muito tímida. A menor possibilidade de exposição pública – mesmo que isso se resumisse a um pequeno grupo – fazia seu coração disparar, as mãos começavam a suar e o rosto ganhava um ardor avermelhado. Apesar disso, ela seguia adiante.

Beleza nunca foi seu forte e só aos trinta começaram a dizer que ela tinha seus encantos. Não sei se levou a sério alguma vez, mas certamente ficou envaidecida com um ou outro elogio. Era calma na maior parte do tempo, embora fosse fácil tira-la do sério.

No início de sua experiência como motorista, ficava receosa, com medo de cometer erros e ser julgada, xingada ou coisa do tipo. Talvez por vaidade, talvez pela timidez que conduzia seus batimentos cardíacos a uma velocidade impensável, talvez pelas duas coisas; o fato é que não queria errar a marcha e nem a arrancada na presença de ninguém. Era como uma pequena aprendiz que se esforça por mostrar bom desempenho. Mas, o trânsito pode ser impiedoso.

Sua calma e gentileza – sempre dava passagem, ajudava os demais a mudar de faixa e respeitava os motociclistas – eram vistas como se incompetência e tacanhez fossem. Logo percebeu que era atacada toda vez que punha em prática uma ação de delicadeza com um pedestre ou outro motorista qualquer. Isso a irritava.

Começou a se sentir oprimida por uma forma de dirigir que a ela se impunha. Não teve jeito, passou a agir como os demais. Não aceitava fechadas e não era condescendente com quem queria cortar a fila ou não sinalizava quando pretendia mudar de faixa. Xingava, perseguia quem a desrespeitava e discutia, com os vidros fechados, claro.

Se estivesse apressada, costurava pelas avenidas, buzinava, dava sinal de luz e tudo mais que podia ser feito. Não tinha paciência com quem vacilava para entrar numa rua ou parecia não saber ao certo para onde ir. De repente, passou a oprimir quem não tinha a mesma postura dura e decidida que ela adotou. Como numa reverberação impensada e irracional, a moça tímida se transformava numa brigona que partia para o embate ao menor sinal de desrespeito, ou o que julgava assim ser. Seu coração ainda pulsava forte e parecia querer escapar do peito, mas agora não mais pela timidez.

A raiva, o incômodo com o outro só a deixavam quando ela saía da posição de motorista. Ao descer do carro, ela voltava a corar, as mãos continuavam suando e ela seguia achando que não era bonita, mas se esforçava para ser, pelo menos, competente no trabalho. Como pedestre, ela podia sonhar, mesmo que fosse julgada por isso, afinal muitos acham desprezível essa mania que algumas pessoas têm de, pela imaginação, se transportar para outro mundo, para uma vida alternativa. Apesar de tanta pressão externa para se enquadrar, como pedestre, ela ainda não tinha se rendido, seguia com seus doces devaneios e suas memórias inventadas.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

“Sai aê”

rua

Mara Rovida*

 

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Houve um tempo em que a rua não era sinônimo de trânsito, de fluxo de pessoas e veículos, era um lugar de encontro, um espaço para a molecada extravasar toda a energia típica de quem mal contava dois dígitos na idade.

Íamos para a escola de manhã cedinho. Na hora do almoço, a chegada em casa era marcada pelo cheiro que pairava na vizinhança, um misto de arroz temperado e carne grelhada com água e sabão usados para lavar garagens e calçadas. Costumava dizer que minha rua tinha cheiro de quintal lavado e tinha mesmo.

Todo mundo comia rapidinho, os meninos mais abastados, estudantes de colégios particulares, e os demais que, como eu e meu irmão, estudavam em escolas da rede estadual nas redondezas. Depois da comida, um tempo para a ajuda nas arrumações da casa, uns instantes para a tarefa escolar e logo a campainha tocava. Lá de fora alguém gritava, “sai aê”. Essas duas palavrinhas, ditas assim como se fossem uma coisa só, davam a deixa, é hora de ir pra rua.

Ali a molecada podia correr, brincar, brigar e, principalmente, fazer coisa que não devia. Na rua de paralelepípedos, cabiam bicicleta, skate, patins, patinete (não motorizado), carrinho de rolimãs, cachorro, gato, tartaruga fujona – até hoje ninguém entende como ela conseguia passar despercebida a cada vez que o portão era aberto –, bolas de todos os tipos e muito barulho.

Os terrenos baldios murados nunca foram interditos de fato. Bastava um pouco de criatividade para romper a barreira, literalmente. Certa vez, o muro simplesmente veio abaixo e até hoje o dono do cavalo que ali ficava procura os responsáveis por abrir aquela fenda por onde o equino fugiu.

Todo dia era assim, “sai aê”, queimada, futebol, vôlei, mãe da mula, taco, safaris pelos terrenos, fogueira, rojões e morteiros para irritar o cachorro do vizinho, pega-pega, esconde-esconde – sempre dava vontade de fazer xixi na hora de esconder – e descidas radicais pela rua íngreme que, vez ou outra, acabavam num encontrão com o paralelepípedo mais próximo.

Quase não passava gente, quem dirá carros. A rua era nossa, até que alguma mãe chamava para o café da tarde. Como uma nuvem de gafanhotos, todos ao mesmo tempo entravámos pela porta da vez e, em alguns minutos, fazíamos o bolo e a dúzia de bananas desaparecer. Na mesma velocidade, corríamos de volta para o mundo lá de fora.

Os portões ficavam quase sempre abertos. Entrava-se para um xixi rápido e uma água. No final da jornada, um caldo preto escorria pelas têmporas de cada um. Sujos como filhotes de porcos depois de um banho de lama, atendíamos aos chamados de pais e mães para o jantar. Mesmo contrariados, seguíamos para o encerramento das casas. Os portões se fechavam naquele momento e só seriam abertos novamente no dia seguinte. Era tempo demais para esperar, afinal pra que dormir?

 

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.