Estupidez mata

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Vai mais uma? Olha lá quem chegou. Agora sim a festa vai começar.

Encontro de camaradas, churrasco, festa na rua, casa de amigo e a aglomeração vai se formando. Carros equipados com potentes sistemas de áudio – desses que chacoalham tudo – mudam a paisagem sonora da vizinhança por algumas horas. Não se ouvem mais as mães chamando, os pais voltando do trabalho, as crianças correndo ou os cachorros latindo; agora é hora de festa.

Cerveja, música alta, gargalhadas, baforadas de vários aromas, moças em roupas justas e curtas, rapazes em vestes coloridas e muitos cliques. Redes sociais abastecidas de imagens brilhantes reforçam a existência e ‘garantem’ que as presenças sejam anotadas.

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É a última viagem do dia. Depois de nove horas de trabalho sob o sol quente do verão paulistano, num trânsito dantesco, eles se aproximam do ponto final.

Aos 46 anos, Antônio sustenta mulher e dois filhos – um menino de 2 anos e uma menina de 8 anos – com o salário de motorista de linha. Ele faz dupla com Mauricio, jovem de 22 anos que sonha fazer faculdade de direito. O cobrador do ônibus vive paquerando as passageiras e acredita que sua futura mulher vai, um dia, passar pela catraca do coletivo.

Faltavam três pontos para a jornada acabar. A última passageira, dona Amélia, desce com eles no final. Ela mora a duas quadras da última parada. Auxiliar de enfermagem, pega três conduções pra ir e três pra voltar do hospital onde dá plantão de segunda a sexta, do meio-dia até a hora que consegue sair.

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A Lei Seca virou assunto em todas as rodas de amigos. Quem é o motorista da vez? Ah, hoje eu vou voltar a pé mesmo, moro aqui do lado.

O tema parece estranho num ambiente regado à álcool, mas as vozes contra a imprudência de motoristas beberrões vão se alastrando e exaltam os ânimos por todo lado, inclusive ali na festinha da rua.

Fico indignada, os caras enchem o latão e depois prejudicam quem não tem nada a ver com a história.

Ah se é comigo….eu pego um fulano desse e quebro na porrada. Você viu o caso da mina que atropelou o camarada na calçada? #@&+

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Hoje, quando chegar em casa, vou jantar uma comidinha especial.

É mesmo? O que a Ana fez?

Escondidinho….com purê de mandioca e queijo coalho, como manda a tradição.

Nossa, seu Antônio, isso não é meio pesado pra comer a essa hora?

Ah, uma vez ou outra não faz mal.

A preocupação de dona Amélia é razoável. Antônio passa o dia sentado atrás do volante, não tem tempo para se exercitar e está bem acima do peso. Na idade dele, esse quadro é um prato cheio – com o perdão do trocadilho – para os males do coração, no sentido stricto do termo.

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Dizem que os elefantes sabem quando vão morrer. Parece que eles se afastam da manada para fazer a passagem em silêncio e sozinhos. Nós, humanos, não temos muita noção de quando a fatídica hora vai chegar.

Algumas doenças se colocam como arautos da grande travessia, mas mesmo nesses casos é difícil saber ao certo. Tem gente que morre dormindo, atravessando a rua ou numa calçada qualquer.

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Mauricio podia jurar que viu um urubu no poste de iluminação pública na rua ali atrás, quando ouviu o grito de dona Amélia. De um pulo só, ele saiu da cadeira de cobrador e foi parar ao lado do motorista. Segurou o volante, girando-o para o lado da rua. Foi o suficiente para evitar que o coletivo subisse na calçada, mas a batida foi inevitável.

Vários carros foram arrastados. Um deles, com a tampa de trás aberta, ainda anunciava os últimos acordes da música que animava a festa.

Finalmente, o coletivo parou e dona Amélia foi logo pegando o celular para chamar ajuda. Sua experiência não deixava margem para dúvidas, era o coração de Antônio que entrava em colapso.

Antes que ela pudesse completar a ligação, mãos raivosas e bocas nervosas que cuspiam todo tipo de palavrão invadiram a cena. Ela demorou alguns instantes para entender o que se passava. Mauricio tentava argumentar, mas ninguém ouvia. Antônio, totalmente desacordado, foi arrastado para fora. Eram cinco, dez, dona Amélia não saberia precisar. Parecia um bando de urubus devorando a carcaça de um animal morto.

Depois da pancadaria, eles se espalharam e sumiram pelas ruas. O silêncio era estarrecedor. Quando finalmente a polícia e o resgate chegaram, era tarde demais para Antônio. O escondidinho preparado pela Ana não seria nunca mais degustado. Confundido com os beberrões ao volante, ele foi massacrado por uma ira alcoolizada e alcoolizante.

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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