O medo paralisa e a violência humilha

Mara Rovida

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

O silêncio gelado da madrugada contrasta com a quentura da multidão espremida, às 5h30 da manhã, dentro do ônibus intermunicipal que leva à estação do metrô. Ainda sonolentas, com pálpebras teimosas caindo como cortinas pesadas, as pessoas se acomodam sem fazer barulho. O balanço irregular do veículo é a única fonte ruidosa até a parada final do coletivo.

Na próxima etapa da viagem, o transporte é outro, mas o cenário se repete com alguma ampliação. Ninguém fala, apenas sussurra o necessário e o silêncio pesa entre os corpos unidos como se fossem um único organismo. Nesse meio, ela se esforça para se manter acordada e não perder sua parada. Mesmo em pé, o cochilo é quase inevitável e passar uma ou duas estações pode custar minutos preciosos a serem descontados no final do mês.

A roupa desconfortável faz parte das escolhas alheias. O tecido sintético do uniforme azul-marinho cola ao corpo e impede a transpiração natural, mas não há alternativa. No trajeto, a única escapadela às regras da empresa é o calçado; em vez de saltos apertados, ela vai de tênis ou sandálias baixas até a entrada do prédio. O rosto ainda não leva as duas camadas de maquilagem exigidas, mas o cabelo já vai minuciosamente arrumado, como manda a chefia.

Entre os solavancos da composição, ela adormece levemente por alguns segundos para ser, então, despertada por uma sensação estranha. Até compreender o que se passa, a jovem recepcionista demora algum tempo; quando finalmente identifica a origem daquela pressão, compressão e opressão, sente um ardor gélido surgir no meio do ventre e se espalhar rapidamente até as extremidades do corpo. Não consegue se mover, fica paralisada num estado quase catatônico. Ninguém parece perceber e ele não se incomoda com a vermelhidão do rosto, os olhos marejando e o tremor de medo causado por sua fúria animalesca porcamente disfarçada. Num contorcionismo bizarro e nojento, ele se satisfaz até a próxima estação, onde desce como se nada tivesse acontecido.

Ainda trêmula e com a respiração falha, a moça se segura com dificuldade. Alguém percebe a brancura que antecede o desmaio e a ampara. Levada para fora do trem, ela tenta articular algumas palavras para denunciar o acontecido. Entre homens metidos em roupas negras e pessoas de várias tonalidades com suas falas sobrepostas e incompreensíveis, ela ouve apenas uma frase por completo…também, com essa calça justa, queria o quê?

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