O medo do taxista diante da corrida

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crédito da foto – Fábio Arantes/Secom

Por Gilberto da Silva

Subi as escadas do Metrô. Ali, na rua, um ponto de táxi. Noite fria, escura, triste como todas as noites paulistanas dessa época. Um carro parado no ponto. Não acreditei. É caso raro naquele local em que pelo menos uma vez por mês eu utilizo o serviço. Olho para dentro do carro e nem sinal do motorista. Onde estás? Olho em volta e a cerca de 10 metros, próximo do poste de iluminação, um homem parado. Motorista? Sim, responde o sujeito. Livre? Sim. Pode me levar ao Ipiranga. Sim.

Entrei pela porta da frente, como sempre faço. Não gosto de utilizar o banco traseiro. Boa noite, digo a expressão a um motorista com cara de assustado. O caminho? Explico. O sujeito tenso, analisando-me a cada instante. Deve ter pensado: é hoje que vou ser assaltado.

Quebro o gelo. Siga pela esquerda, dobre a direita e pegue tal avenida. E o homem tenso. Quebro novamente o gelo. É novo no ponto? Sem resposta. Pois é, eu sempre pego taxi aqui, geralmente com um dos dois irmãos que tem o ponto neste local. Eu moro perto da casa de um deles. Há, é verdade….

Gilberto da Silva é formado em sociologia e jornalismo, mestre em Comunicação pela Faculdade Casper Líbero. Foi professor do ensino secundário. Professor universitário e edita a revista virtual P@rtes (www.partes.com.br).

Gilberto da Silva é formado em sociologia e jornalismo, mestre em Comunicação pela Faculdade Casper Líbero. Foi professor do ensino secundário. Professor universitário e edita a revista virtual P@rtes (www.partes.com.br).

A tensão parece diminuir. O sujeito emenda: não gosto muito de ir para esse lado á noite… (bom pensei: então o que está fazendo àquela hora no ponto???? Vendo o frio chegar?)

À certa altura, quase perto do local do destino final, o motorista medroso pergunta se eu moro em casa ou apartamento. Vai me mandar flores? Colocar no catálogo de moda?

Insiste logo mais: é um local ermo? Descampado? O medo do homem estava deixando-me irritado. É perigoso…. Olha, meu senhor, para ser sincero que lugar não é? Todo canto desta cidade é perigoso. Não existe mais lugar tranquilo nessas praias paulistanas. Veja bem, na madrugada anterior assaltaram e apavoraram uma família numa rua próxima. O medo do motorista ressalta em seus olhos. Pareceu suar frio.

Vire à direita. Pare naquele prédio. Quanto custou a corrida? Tanto. Está aqui o dinheiro.

Acho que tomei florais de manhã. Eu estava muito tranquilo. Indiquei o caminho de volta para o motorista e caminhei para a portaria.

Em casa, ao sentar no sofá, tirando os sapatos, pensei: sorte do motorista. Eu estava num dia de enorme tranquilidade e paz no coração. Em dias normais, estressado, teria mandado o motorista medroso catar coquinho na esquina. Se é medroso desista desta profissão perigosa. Para ser motorista de táxi na cidade tem que ter muita coragem. O homem está no lugar errado. Hoje ele se deu bem. Mas quem garante amanhã?

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