Da baliza ao quase-atropelamento, uma história de amor em trânsito

Baliza

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

O domingo já chegava ao fim. A churrasqueira esfriava, enquanto músicas antigas eram escolhidas para fechar o dia de folga. Em meio às memórias de uma adolescência dançante, Daiane fez uma referência qualquer a seu quase-casamento. Como assim você quase casou?

A descoberta da história antiga fez o grupinho parar para ouvir a narrativa da moça que fazia piada de si mesma. Interpretando personagens reais, ela mais parecia contar uma grande anedota. Talvez isso diminuísse um pouco o impacto da memória doída que ela dizia superada.

***

Daiane estava na fila da baliza, na prova prática de direção que faz parte dos testes necessários para tirar a carteira de habilitação. Nervosa, é claro, ela aguardava sua vez de fazer a manobra que assombra aprendizes de motorista em todos os cantos do país. Quer um bombom? Automaticamente aceitou a oferta do belo rapaz, mas sem dar muita atenção. Não fica nervosa, vai dar tudo certo. O nervosismo atrapalha demais, então fica tranquila. Falar para ter calma é um ótimo jeito de deixar a pessoa ainda mais nervosa. Mas o açúcar do bombom parece ter surtido algum efeito.

A moça passou na prova e telefones foram trocados.

O rapaz tentou insistentemente marcar um encontro. Mas, durante um bom tempo, Daiane se esquivou, sempre tinha uma boa desculpa até que um dia, resolvi ver qual é que era e aceitei comer uma pizza com ele.

Na pizzaria, o amor foi azeitado e alguns meses depois os dois já estavam morando juntos.

Marcelo era capitão da Marinha Brasileira. Daiane trabalhava como auxiliar administrativa em um hospital público e ainda não tinha feito faculdade. Com 22 anos e uma família cheia de dificuldades financeiras, os planos de fazer um curso superior tiveram de ser adiados. Ele, natural de Belfort Roxo (RJ), vinha de uma família de posses. Sua mãe começou a questionar logo de início se aquele relacionamento era profícuo para seu rebento. Afinal, a nora ideal tinha de estar à altura do garboso oficial que ela chamava de filho.

Não demorou muito para que dona Amélia transformasse azeite em vinagre. Começou com uma ou outra investida dissimulada. Na ausência do filho, ela dizia seus desaforos e fazia pouco das origens de Daiane. Mas não estamos falando de uma mocinha de contos de fadas, enfeitada em fitas cor de rosa. No segundo ou terceiro despropósito da sogra-serpente, ela cuspiu meia dúzia de palavrões e falou duas ou três verdades que não me atrevo a repetir.

Pronto. Estava armada a confusão. Chamado às pressas para uma reunião urgente no Rio de Janeiro, o militar de boa patente partiu em cumprimento às ordens da oficial-matriarca.

O detalhe é que o chamado veio uma semana antes do matrimônio. Enquanto cuidava dos preparativos para o casório, Daiane viu seu noivo partir para os braços, digo, para o encontro com a mamãe. Dois dias depois, estava de volta a São Paulo. Com ar austero que forçava uma maturidade inexistente, ele anunciou o fim de tudo. Não te amo mais, não vai mais ter casamento. Ao voltar do trabalho, Daiane viu suas coisas embrulhadas em sacos pretos, desses que usamos para colocar o lixo. Impedida de entrar na casa, ela recolheu seus pertences ali mesmo na garagem.

Quem poderia engolir uma humilhação desse tipo? Pensou em explodir a casa, mas desistiu. Resolveu secar até a última gota do seu próprio volume morto. Mas o destino, esse fanfarrão, resolveu brincar com a moça esquentada. Um mês depois de sair carregando sua mudança de volta para a casa dos pais, Daiane esbarrou no capitão-bebê-chorão-da-mamãe. Marcelo seguia orgulhoso e pimpão em sua brilhosa moto importada por uma arborizada avenida da cidade. Com um canteiro central recheado de árvores altas que fazem boa sombra, a avenida é deliciosa para passeios de domingo. Mas, eis que logo atrás vinha Daiane pilotando o carro do pai. Quando se deu conta de quem era o motociclista ali na frente, ela encarnou o pateta-motorista e jogou o carro contra o rapaz. Marcelo só teve tempo de pular do veículo. Ele se abrigou no canteiro, enquanto ela acelerava. Você não é o bonzão, não é o maioral? Então, desce aqui. Eu vou te matar.

Logo fez plateia. Quem não gosta de um drama de amor? Chamaram a polícia e a viatura apareceu numa piscadela. Moça, se acalme, não faça isso. Não vale a pena. A fúria fazia o corpo franzino da jovem estremecer. Com a tez avermelhada pelo fogo da injúria sofrida, ela gesticulava e cuspia suas decepções, seus sonhos feitos em pedaços, sua humilhação. Ele me largou, me jogou fora, colocou minhas coisas em sacos de lixo.

A prova da baliza foi refresco perto do teste de nervos. Ainda sob efeito do descontrole emocional, ela voltou para casa, sem bombons-calmantes, sem juras de amor e com o tônus da alma comprometido.

***

Já faz tempo que ela dirige. Já faz tempo que ela não deseja atropelar ninguém. Já faz tempo que ela faz baliza em qualquer espaço. Mas, tenho minhas dúvidas se esse tempo foi suficiente para Daiane esquecer o azedume disfarçado de chocolate e azeitonas.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.