Poder público é culpado pelas 189 mortes de motociclistas

Danilo Angrimani (*)

Nos primeiros seis meses do ano, morreram 189 motociclistas em São Paulo. No mesmo período, foram atropelados e mortos 248 pedestres e ainda 23 ciclistas perderam a vida. São números frios. Não se sabe quem está por trás deles. Eles morrem e se transformam em mera estatística. Desconhecemos sua história. Eram pais de família? Deixaram viúva? Morreram jovens? Foram pais que perderam seus filhos?

A estatística parece comprovar que a política de trânsito do suposto presidenciável João Dória fracassou. Ao aumentar os limites de velocidade, Dória teria sido o responsável pelo aumento das mortes. Mais uma vez, a briga entre PT e PSDB reaparece. Os petistas vão criticar o prefeito e os partidários do tucano vão dizer que a culpa é da imprudência.

Na prática, o poder público é sim responsável por todas essas mortes. As prefeituras fazem muito pouco para evitá-las. Fui motociclista. Fazia barbaridades no trânsito. Andava nos corredores em velocidade incompatível. Uma vez na avenida Rubem Berta estava no corredor, acelerando firme em direção ao Aeroporto de Congonhas, onde trabalhava. Chovia muito. Tempestade de verão. A visibilidade era limitada. Usava óculos de motociclista e capacete. Óculos, como se sabe, não têm limpador. Então, imagine o que eu conseguia enxergar pela frente.

Ao passar por baixo daquele viaduto sob a avenida Indianópolis, vi um pedestre, tentando atravessar a Rubem Berta. Preso entre as correntes incessantes de tráfego, ensopado, perdido ali no meio, o desgraçado esperava pela oportunidade de ser atropelado. Não devia ser um suicida, mas quem sabe…

Lembro que por um milagre da física quântica passei, em alta velocidade, entre ele e os carros que voavam baixo pela avenida. Foi uma fração de segundos. Um momento onde eu poderia ter atropelado e matado o sujeito. Em seguida, seria também atropelado pelos veículos que trafegavam acima de 90 km/h. Minha moto Yamaha 125 c/c viraria ferro-velho. Mas passei batido entre ele e os carros. Ninguém se feriu e fui em frente. Cheguei com os joelhos bambos no serviço.

Em outra oportunidade, fiz tantos cortes entre as faixas da avenida 23 de Maio, passando rente entre os milhares de veículos parados, que um senhor, dirigindo uma lambreta me seguiu e, ao estacionar minha moto na rua Libero Badaró, o lambretista parou ao meu lado e me mandou ter juízo. Ele me passou uma descompostura. Disse que eu dirigia como um maluco, que ia acabar matando uma criança, uma senhora, um pai de família. Esse cara fez algo que o poder público da minha época não fez e continua não fazendo. Ele me chamou à razão. Já o poder público é omisso. Vive escondido.

Por experiência própria, sei que esses motociclistas que vão morrer hoje são, em sua maioria, imprudentes. Não obedecem as regras elementares de trânsito. Trafegam em velocidades incompatíveis com as vias. Cometem barbaridades no trânsito: andam na contramão, desrespeitam faróis, destroem retrovisores e por aí vai. A lista é imensa e cansativa.

O problema é que ninguém liga para eles. A gente sabe que vai topar daqui a pouco com um motociclista caído, machucado, às vezes, morto. Se eu fosse poder público, se estivesse à frente de uma Secretaria de Trânsito, faria o papel daquele senhor de lambreta. É inadmissível deixar esses motociclistas à vontade, esperando só o momento deles estarem destruídos no asfalto para agir. E agir na forma de um caminhão de resgate dos bombeiros, que vai recolher os cacos.

Lembro do meu amigo Gerson, jornalista e professor, que morava perto da gente, em Brighton (Inglaterra). Gerson tinha uma bicicleta preta, bonita, impecável. O único problema da bicicleta é que ela não tinha farol. E sem farol você (de carro, moto, bicicleta) não circula à noite na Inglaterra. Toda vez que o Gerson saía à noite, era parado pela polícia. Os agentes o mandavam descer. Pediam documentos e o obrigavam a desmontar e voltar para casa, empurrando a bicicleta. Isso aconteceu umas seis vezes. Na sétima, Gerson passou na boa. Tinha comprado um farol.

Se o poder público funcionasse, o motociclista imprudente deveria ser parado, multado e obrigado a frequentar um curso de reciclagem. Em caso de reincidência, perderia a carta. A fiscalização precisaria também observar o estado das motos. A gente percebe moto com placa tão suja que não se consegue ver os números. Outras têm pneus sem ranhuras. Imagine frear em um dia chuvoso? A moto não para. Acredite. Já tive moto com pneu careca e sei que ela não para no asfalto molhado. No interior, dizem, é mais comum você encontrar gente sem carta dirigindo, do que devidamente habilitado. Na realidade, falta fiscalização ativa, presente, ostensiva.

O poder público deveria se preocupar com as pessoas; começar a existir em função dessa gente que paga impostos, que paga também seus salários. Enquanto as pessoas continuam morrendo em nossas ruas e avenidas, discute-se fundo partidário, se o PSDB deve sair ou não do governo, se o Lula faz campanha ou não, se o presidencialismo é melhor ou pior que o parlamentarismo… São pautas frívolas, de quem há muito tempo deixou de viver a realidade das ruas.

*Do blog: Jornalista sem jornal

 

https://jornalistasemjornal.blogspot.com.br/

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Melhorar o trânsito e encurtar distâncias para preservar o planeta

Por Jacob Rosenbloom (*)

 

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Jacob Rosenblom é CEO da Emprego Ligado

Nos últimos anos, temos observado a constante e atual transformação no modelo de políticas públicas de mobilidade urbana. O país enfrenta um grande desafio devido às crescentes taxas de urbanização, as limitações em relação à construção de transporte coletivo e o aumento desenfreado da motorização individual, tudo isso somado ao impacto gerado pela frota de veículos voltada para o transporte de cargas.

A falta de planejamento do transporte urbano é a principal razão para a insustentabilidade da maneira como convivemos no trânsito das cidades. Afinal, as medidas tradicionais, como aumento da capacidade viária, se mostram cada vez mais ineficazes porque estimulam o uso do carro e o que gera mais intensidade no tráfego, alimentando um ciclo vicioso responsável pela degradação do meio ambiente e pela redução da qualidade de vida urbana.

No mundo, o setor de transportes é responsável por cerca de 20% das emissões de CO², sem considerar a emissão de outros poluentes que agridem o meio ambiente. De acordo com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), no Brasil, o ramo de transpores responde por cerca de 9% das emissões totais de CO². Com mais de 80% da população vivendo em áreas urbanas, a maior parte das emissões veiculares de carbono concentra-se nessas áreas.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) se aprofundou nestes dados para identificar, separadamente, os valores médios de emissão de CO² durante o trajeto entre casa e trabalho. O estudo revelou que o transporte individual responde, em média, por 35% das viagens motorizadas, sendo responsável por quase 60% das emissões de dióxido de carbono.

Em segundo lugar aparece o transporte público coletivo, responsável por mais de 60% das viagens nas cidades, com 25% das emissões totais. Veículos utilitários de carga, responsáveis por 1% das viagens motorizadas, respondem por mais de 10% das emissões de CO².

Portanto, fica bastante clara a necessidade de se realizar mudanças profundas nos padrões tradicionais de mobilidade, visando cidades mais justas e sustentáveis. Neste sentido, a tecnologia trabalha a favor, buscando reduzir as distâncias e melhorando a forma como a população se relaciona com a mobilidade nos grandes centros urbanos. Uma das soluções que vem ganhado espaço e adeptos no mundo todo é o georecrutamento.

O sistema permite conectar profissionais às vagas de emprego que estão mais próximas de sua residência, a fim de diminuir problemas com longos trajetos e de rotatividade dentro das empresas. Pesquisas apontam que 36,7% das pessoas deixam seus cargos em função da distância entre casa e trabalho. Já 43,3% das pessoas saem das empresas por não visualizarem um plano de carreira.

Com o tema qualidade de vida cada vez mais presente no discurso do trabalhador, as organizações e governos precisam apostar em inovações para a mobilidade, com o intuito de construir um trânsito adequado às necessidades atuais da sociedade e garantir no futuro um meio ambiente limpo, saudável e planejado para as próximas gerações.

*Jacob Rosenbloom é CEO da Emprego Ligado.

Ciclovias promovem mudança de cultura no trânsito de São Paulo

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Até o momento, a malha cicloviária tem 356,8 km implantados, cujo legado vai gerar melhor qualidade de vida aos paulistanos

 

A implantação da malha cicloviária em toda a cidade de São Paulo é uma das diretrizes estratégicas da atual gestão, na qual as bicicletas tornaram-se instrumentos fundamentais dentro do processo de mobilidade urbana.

Malha cicloviária de São Paulo ajuda na qualidade de vida dos paulistanos / Foto: Sidnei Santos

A ampliação do projeto cicloviário, segundo a coordenadora do Departamento de Planejamento Cicloviário da CET, Suzana Leite Nogueira, está promovendo uma mudança de paradigma. “Com as ciclovias, aos poucos, as pessoas estão mudando seus hábitos, trocando os veículos pelas bicicletas, com isso , diminuindo o adensamento da massa motorizada nas ruas e avenidas”, ressaltou.

 

Mudança de comportamento

Com o incremento da malha cicloviária, a Companhia amplificou o trabalho educacional junto aos cidadãos por meio do Centro de Treinamento e Educação de Trânsito (CETET/CET).

Atualmente, o CETET conta com o curso Pedalar com Segurança, onde os alunos recebem uma série de orientações sobre os aspectos de segurança no trânsito, utilizando a bicicleta como meio de transporte, no exercício de atribuições profissionais ou em momentos de lazer.

CET investe na educação dos ciclistas no trânsito/ Foto: Sidnei Santos

A diretora do Departamento de Educação para Condutores, Ilana Berezovsky Frigieri, observa que o curso trabalha com foco na mudança de comportamento dos ciclistas. “Os usuários de bicicletas devem andar de forma segura respeitando as leis, valorizando os princípios de humanidade e cidadania”.

O trabalho oferecido no Centro de Treinamento faz parte do Programa de Proteção à Vida (PPV), iniciado em 2013 pela Secretaria Municipal de Transportes com apoio da CET visando a segurança de todas as pessoas no trânsito da cidade, especialmente os agentes mais vulneráveis como pedestres e ciclistas.

As medidas tomadas com o PPV fazem parte do Plano Global para a Década de Ação para a Segurança no Trânsito 2011-2020, liderada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), cujo objetivo é reduzir os índices de mortes em todo o mundo. A cidade de São Paulo é uma das signatárias desta causa.

 

 

Legado à população

Para o superintende de Planejamentos e Projetos da Companhia, Ronaldo Tonobohn, a malha cicloviária é um grande legado deixado pela prefeitura aos paulistanos.

“Os usuários ganharão novas opções de mobilidade e acesso à cidade, ampliação da segurança na circulação de todos os modais, melhoria dos indicadores de saúde e expectativa de vida, que geram melhoria na qualidade de vida”, destacou.

O sistema cicloviário é parte integrante da Política de Mobilidade do Município, e busca a efetivação dos princípios da Política Nacional de Mobilidade Urbana (Lei Federal 12.587, de 2012), da Política Municipal de Mudança do Clima de São Paulo (Lei Municipal 14.933, de 2009) e do Plano Diretor Estratégico (Lei Municipal 16.050, de 2014) no Município de São Paulo.

Padrão internacional de qualidade

A cidade de São Paulo segue o bom exemplo de grandes metrópoles ao redor do mundo, como Nova Iorque, Berlim e Madrid, que estão implementando alternativas efetivas com vistas à mudança da matriz energética.

Não por acaso, o projeto Ciclovia SP 400 km é um modelo reconhecido nacional e internacionalmente “por acomodar o ciclista em estruturas que são seguras para sua circulação, e que estão estruturadas a fim de compor uma abrangência em todo o território do município”, afirmou Tonobohn.

Os critérios de projeto para sinalização de circulação de bicicletas na via pública seguem as determinações técnicas que fazem parte do Manual de Sinalização Urbana elaborado pela Companhia.

“A implantação da rede cicloviária traz benefícios à mobilidade urbana, tanto na valorização e incentivo aos usos dos modos ativos (não motorizados), quanto à própria ocupação dos espaços urbanos. A bicicleta é um modo complementar à rede estrutural de transporte coletivo”, citou Suzana.

 

Em junho de 2014, a prefeitura aprovou o Projeto Ciclovia SP 400 km, cuja meta lançada à Secretaria Municipal de Transportes e a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), foi a implantação de 400 km de ciclovias em todas as regiões da cidade, estabelecendo conexões com outros modais de transporte, como terminais de ônibus, equipamentos públicos, escolas, praças, parques e locais de trabalho.

Dos 64,7 km de ciclovias existentes até junho de 2014, a atual gestão foi responsável pela implantação de 260 km, além dos 31,9 km de ciclorrotas. Com estes números somados, a malha cicloviária alcançou 356,8 km. Os paulistanos também contam com 120,8 km de ciclofaixas de lazer, que são ativadas aos domingos e feriados, em parceria com a Bradesco Seguros.

 

 

Aprovação dos paulistanos

A ampliação da malha cicloviária na cidade de São Paulo está gerando reflexos positivos na vida dos paulistanos. Ou seja, gradativamente as bicicletas estão se inserindo com importante meio de transporte.

Pesquisa realizada pelo Ibope em 2014 mostra que o número de usuários cresceu em torno de 50% ou 171,1 mil ciclistas. Neste ano, o patamar alcançou 261 mil paulistanos que estão usando a magrela para diferentes tipos de deslocamentos.

De acordo com o biker courier, Rafael Justo, que transita diariamente pelo trecho da Avenida Paulista, as ciclovias “protegem os cidadãos, num espaço sadio para livre circulação”.

Ciclista Aline Riera aprova a iniciativa da prefeitura / Foto: Sidnei Santos

Simulador de direção é tecnologia em favor de um trânsito mais seguro

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Diante das recentes discussões acerca das reações da sociedade quanto à obrigatoriedade do simulador de direção veicular para a formação de novos condutores, sinto-me na obrigação de cumprir meu papel como especialista em segurança, educação no trânsito e formação de condutores e ajudar a disseminar informações corretas e embasadas. Por isso, destaco que contar com esse equipamento não é uma decisão sem fundamento e muito menos ao acaso. É uma questão que une tecnologia e conteúdo pedagógico em favor de uma formação melhor, resultando em um trânsito mais seguro e que busca preservar vidas.

E já que falamos no esforço em melhorarmos esse cenário, vale voltarmos um pouco ao passado e às polêmicas geradas no Brasil a partir de mudanças na legislação de trânsito, que demandaram aos motoristas incorporar novos hábitos, o que sempre traz resistência e necessita de um trabalho educativo para ser assimilado. Um desses exemplos foi a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança, instituído em 1994 no país. Pesquisas internacionais apontam que a utilização dele reduz em até 40% as consequências fatais em um acidente.

A necessidade de utilizar o dispositivo foi questionada quanto à sua eficácia, mas aos poucos a sociedade entendeu que se tratava de uma medida que tornava mais segura a viagem, tanto que hoje passou a ser aceito e, principalmente, colocado em prática. Porém, nesse caminho foi preciso paciência e muito esforço para que a mensagem fosse incorporada e só agora, mais de duas décadas depois, é um ponto consensual quando o assunto é a segurança na condução do veículo.

Também vale lembrarmos do uso obrigatório de cadeirinhas para o transporte de crianças de até 7 anos, que passou a ser obrigatório no Brasil em 2010. Esse foi outro paradigma quebrado e as estatísticas apontam não haver dúvida de sua eficiência. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a utilização correta da cadeirinha reduz em 70% a possibilidade de morte das crianças em um acidente. Esse dado reforça que, além de ser um cidadão consciente e que respeita a lei vigente, ao utilizar o dispositivo o condutor demonstra também um compromisso com a geração futura ao preservar a vida de seus filhos.

Esses são dois exemplos de mudanças envolvendo os hábitos dos motoristas brasileiros que também sofreram rejeição à época em que foram implantados, assim como o simulador de direção na atualidade, mas que hoje são reconhecidos como itens indispensáveis de segurança, tendo seus papeis reforçados com o apoio das estatísticas citadas. Então, por que não nos permitirmos aceitar a tecnologia do simulador como aliada na busca pela melhor formação de nossos motoristas e, consequentemente, por um trânsito mais seguro?

robertaSou proprietária de um Centro de Formação de Condutores (CFC) em Belo Horizonte, uso o simulador há quase dois anos e venho acompanhando no dia a dia como ele se mostra eficaz em busca de seu propósito. As aulas na ferramenta são importantes porque contribuem para que o aluno chegue preparado ao momento em que vivenciará a prática de direção em um veículo e consiga reagir de maneira correta e segura ante aos desafios do cotidiano no trânsito. É nítida a diferença entre um aluno que começa as aulas de direção tendo passado pelo simulador e aqueles que não passaram.

O simulador é a oportunidade de quem nunca conduziu um veículo aprender as primeiras noções básicas de manuseio. Além disso, permite que não só conheça os comandos de um carro necessários para uma condução segura, como também vivencie como é dirigir em dias com neblina, chuvosos, em situações de aquaplanagem, em rodovias, serras ou, até mesmo, simulando de que forma o álcool afeta os reflexos do motorista e eleva os riscos de acidentes. Tudo isso com segurança no processo de aprendizado, o que não seria possível simular durante as aulas práticas para ter a tão sonhada Carteira Nacional de Habilitação (CNH).

Em resumo, o aprendizado no simulador só traz benefícios, educando o futuro motorista, acelerando o processo de aprendizagem dele e ainda servindo para que os condutores novatos desenvolvam as habilidades de direção fundamentais antes de assumir a direção de um veículo e sair às ruas. Diante desses avanços, é preciso mostrar disposição em evoluirmos em nossas atitudes e quebrarmos paradigmas, sempre colocando a segurança em 1º lugar!

Roberta Torres

Especialista em Segurança e Educação no Trânsito

Vida no trânsito: Uma questão multidisciplinar

Oliver Schulze

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Todo dia de manhã levo minhas filhas à escola. Hoje em menos de cinco minutos presenciei três barbaridades no trânsito. Primeiro uma criança aparentando menos de 10 anos sentada no banco da frente do carro sem cinto de segurança afivelado.

Em geral a justificativa dos pais para dispensar a segurança é a de que moram muito perto do colégio, porém não escolhemos o momento em que seremos envolvidos em um acidente, e é sabido que muitas das colisões ocorrem próximo à residência das vítimas.

Logo em seguida fui ultrapassado pela contramão por um motoqueiro, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mais à frente quando cheguei ao cruzamento lá estava ele caído no chão ao lado da moto. Teve sorte de não ser atropelado. Como não fosse suficiente, na estrada um pedestre caminhava na pista de rolagem apesar do espaço exclusivo destinado para isso.

Outro dia nessa mesma estrada parei para uma pessoa atravessar na faixa de pedestre. A motorista do veículo que vinha atrás começou a buzinar muito e passou berrando “aqui não é lugar de parar não! Aqui não é Estados Unidos”. Realmente aqui não é os Estados Unidos e nunca será enquanto tivermos motoristas despreparados, descontrolados e desinformados.

Você sabe quantas pessoas ficam feridas e morrem por ano em acidentes de trânsito no Brasil? Fica chocado quando ocorre um acidente aéreo e morrem mais de 100 pessoas? Pois saiba que nas estradas do nosso País temos o equivalente a um grave acidente aéreo ou uma tragédia da boate Kiss por dia. Isso mesmo! Morrem mais de 50 mil pessoas por ano, ou quase 200 pessoas por dia.

Precisamos agir mais rápido diante de tanta violência. Sabemos que acidentes podem ocorrer por diversas razões, de problemas no veículo, falta de infraestrutura viária, condições climáticas adversas até o comportamento do motorista. Sim, a vida no trânsito depende de ações multidisciplinares.

No tocante à segurança veicular, seja por força da legislação brasileira, da concorrência cada vez mais forte em todos os segmentos da indústria automobilística, ou até mesmo de avaliações regulares feitas por organismos como a LATINNCAP, a evolução tem sido constante.

Nos últimos anos os veículos produzidos no País agregaram segurança, que alcançou com mais intensidade os carros mais luxuosos, que já oferecem recursos tecnológicos como o controle eletrônico de estabilidade (ESP), que evita que o veículo perca o controle em situações de risco. As melhorias não se restringem apenas à eletrônica, mas também à parte estrutural dos veículos com carroçarias que oferecem mais proteção ao ocupante.

No que diz respeito à infraestrutura viária é possível afirmar que há estradas em boas condições no Brasil, mas ainda há um longo caminho a percorrer para um sistema eficiente. Segundo a pesquisa CNT de Rodovias 2015, que percorreu e avaliou mais de 100 mil quilômetros de rodovias pavimentadas por todo o País, (19,7% concedidas 80,3% sob gestão pública) 57,3% delas são deficientes no estado de conservação. Na avaliação da pesquisa, o estado geral das rodovias sob concessão foi 78,3% bom e ótimo, enquanto nas vias públicas esse porcentual foi de 34%. Em relação à geometria das vias, 38,9% é o percentual de ótimo e bom nas concedidas, e de 18,8% nas públicas.

Ainda no quesito infraestrutura, projetar estradas mais seguras e intensificar a sinalização especial de advertência para condições de pista e climáticas, são ações mais que necessárias para a segurança de quem dirige em um país de dimensão continental com incontáveis variações de clima. Não há como alterar o clima, mas a prudência está ao alcance de todos os que dirigem.

O comportamento ao volante pode fazer a diferença entre a vida e a morte. O motorista precisa conhecer suas próprias limitações, as restrições do veículo e da estrada e se adequar à realidade. Situações diferentes exigem cuidados diferentes. Imagine um automóvel de mil cilindradas conduzido por alguém cansado, com cinco ocupantes, porta-malas cheio e pneus carecas, subindo a serra em um dia de chuva e neblina. Agora pense em um veículo com todos os equipamentos de última geração, dois ocupantes e motorista descansado dirigindo em uma estrada em boas condições de conservação, em um dia ensolarado. O motorista tem que se adequar às condições de dirigibilidade para tomada de decisões seguras.

Obviamente há inúmeros outros fatores que podem influenciar a habilidade de dirigir. Por isso e, antes de tudo, é necessário que prioritariamente haja respeito à vida. No Brasil ainda precisamos de um trabalho intenso e permanente de educação no trânsito, de conscientização, com abordagem em escolas, cursos de direção defensiva, palestras e demais treinamentos.

Nossa parte enquanto motoristas é respeitar o pedestre e a sinalização; manter a devida distância do veículo à frente; priorizar a segurança das crianças com equipamentos adequados à idade; reduzir a velocidade em caso de forte chuva e vento. Enfim, dirigir com consciência é contribuir para mais vida no trânsito e para a redução da triste estatística de mortes em nosso País. Um trânsito seguro depende de todos nós. Esse será o tema central do Painel de Segurança Veicular no 25º Congresso SAE BRASIL, que será realizado em outubro, em São Paulo.

Oliver Schulze é engenheiro e dirige o Comitê de Segurança Veicular do Congresso SAE BRASIL 2016

O Trânsito e as Cidades

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Glavio Leal Paura*

É interessante pensarmos que o trânsito nos remete diretamente às cidades e, hoje, podemos considerar que este é um dos problemas que afetam de forma direta a qualidade de vida, principalmente nos grandes centros. Mas onde está o problema? Seria o grande número de carros, pela facilidade que hoje temos em comprá-los? Seria o transporte público brasileiro deficitário, que leva as pessoas a adquirem os carros? Ou o problema do trânsito está no comportamento das pessoas que ali estão como condutores?

Concordo com quem disser que todos os pontos mencionados são problemas pertinentes ao nosso trânsito. Hoje, porém, muitos concordarão que se o comportamento de quem conduz o veículo fosse diferente, muitos acidentes poderiam facilmente serem evitados. Neste sentido, vem o movimento Maio Amarelo que, como o próprio diz, é uma proposta para chamar a atenção da sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito em todo o mundo. A questão comportamental é um dos principais fatores de acidentes em um trânsito por si só intenso e tenso.

Pare para pensar quantas vezes você já se irritou com alguma situação de trânsito na última semana, ou melhor, no dia de hoje. Quem dirige diariamente possivelmente tem um fato para contar e posso quase que afirmar que o momento que te irritou foi por uma questão comportamental, que envolve ou a falta de atenção ou práticas não aconselháveis no trânsito. É um motorista que não se mantém à esquerda para uma conversão no mesmo sentido, é alguém que troca de faixa sem sinalizar, é um condutor que freia repentinamente porque estava mexendo no celular e não prestou atenção na fila de carros que pararam. Tais pontos são geradores de acidentes e de estresse no trânsito, que é uma das variáveis que podem levar a acidentes.

Além disso, temos a questão psicológica que, aliada a uma forte irresponsabilidade, podem não causar somente um incidente ou estresse, mas sim um acidente grave. Ou ainda um (ir) responsável por conduzir uma criança sem uso da cadeirinha, um motociclista sem o capacete, a direção aliada ao consumo de álcool ou outro tipo de droga ou a falta do sinto de segurança entre tantos outros erros. O Maio Amarelo surge como um importante movimento de conscientização para algo que hoje é um problema mundial. O Brasil é o quinto entre os países que mais matam no trânsito, o que nos mostra a importância de um movimento que desenvolve ações entre o poder público e a sociedade civil, envolvendo segmentos distintos para a conscientização.

Essa consciência, quando falamos do condutor, está em situações que deveriam ser óbvias e rotineiras, pois, se apenas respeitarmos as leis, vários acidentes já serão evitados. Se uma via tem limite de velocidade, não é à toa, não foi determinado simplesmente pelo gosto de alguém – e sim por pareceres técnicos e de segurança. Temos um exemplo de onde isso funcionou em Curitiba. A prefeitura instaurou a Área Calma, uma região do centro da cidade no qual a velocidade máxima permita é de 40 km/h. Uma medida preocupada com o bem estar do cidadão e com a redução de acidentes. O resultado foi reduzir a zero os acidentes fatais nessa região.

Que a nossa consciência não acabe com a chegada do mês de junho. Precisamos nos conscientizar de que, com certeza, o poder público tem sua responsabilidade, porém, o principal está em nossas mãos. Até quando morreremos por nossas atitudes?

*Glavio Leal Paura é coordenador dos cursos de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Positivo (UP).

Fusquinha branco

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Por Mara Rovida

Quando você acha que já viu “de um tudo” no trânsito, dá de cara com uma simpática senhorinha guiando um fusquinha branco; daquele tipo que quando é visto na rua, a gente não consegue evitar a exclamação: olha a fuqueta!

Não fosse o fato de ela estar na contramão numa estreita rua do centro guarulhense, teria sido apenas mais um momento de admiração pela caranga.

Segui em frente, na direção permitida, mas ainda pude capturar seu semblante tranquilo de quem não parecia muito presente nesse plano astral