“Sou piloto”, mas o carro é do papai

narguile

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Cruza. Acelera. Freia. Corta. Costura. Passa raspando. Muda de faixa. Vai para direita. Volta para esquerda. Pega um pedaço de acostamento. Causa perturbação por onde passa. Testa a sorte de cada dia. Diverte-se com os limites. Conduz no fio da navalha.

Quem se aproxima sente arrepios com o barulho ensurdecedor que mais parece um teste – de potência do sistema de som ou do aparelho auditivo de seus ocupantes. O carro é sisudo, um sedã importado, sem xênon, tunagem de qualquer espécie, nem rodas extravagantes, mas os ocupantes ressignificam a caranga emprestada.

Durante a semana, o carro é interdito para o jovem da casa. Serve de meio de transporte para o pai, verdadeiro dono do veículo. Mas, no sábado à noite, o papai libera a chave. A molecada se anima, a chegada na balada de hoje vai ser top.

Todos prontos para o início das festividades; cabelos devidamente espetados, perfumes importados, roupas de grife, narguilé e seus apetrechos preparados, dinheiro na carteira, espinhas disfarçadas, vamos onde está a mulherada!

No caminho, os pneus vão se gastando numa proporção improvável para o curto trajeto. As barbeiragens não resultam em acidente, sabe se lá como. Sorte? Talvez. Mas é possível garantir que um encontro repentino com o azar não aconteça na próxima esquina?

Costurando. Sorrindo. Esquentando no caminho. Goles. Baforadas. Empolgação.

O ritual é repetido religiosamente aos sábados (às vezes, às sextas-feiras também). Ao chegar na balada, uma cantada de pneus mais caprichada. A fumaça se esparrama pela rua. Abafamos!

Entrada garantida no recinto nebuloso, esfumaçado (artificialmente, graças à lei antifumo), barulhento e escuro. Desce uma garrafa de vodka e muito energético, ordenam logo de cara. Entre goladas geladas e sorrisos plastificados, alguém sugere, uma dose de Bourbon. O copo chega e acaba, impreterivelmente, misturado ao energético adocicado.

Num olhar atento, de sujeito crítico, a sentença, garotos bobos, não sabem dirigir, não sabem se divertir, não sabem beber. Quem estragaria um destilado cuidadosa e demoradamente envelhecido com essa porcaria de energético?

Ao menos com a lei seca, o piloto da vez fica só no energético. Teria a glicose poder de alterar os reflexos do rapazote? Pelo sim pelo não, quando um sedã sisudo passar costurando, no sábado à noite, melhor manter distância, afinal nunca se sabe quando acaba a sorte de um “piloto” de fim de semana.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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Não há espaço. Sufocamos

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Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Buzinas abafadas pelos vidros fechados e respingados de garoa. Faz tempo que nosso inverno não vem assim tão úmido. O céu parece pesar como se fora teto de construção com pé direito reduzido. O vento frio e molhado pelas gotículas que caem incessantes fazem os ossos doerem. Por isso, Ana Paula segue com as janelas fechadas e o ar condicionado programado para aquecer.

As ruas, avenidas, vias expressas estão repletas de carros e motos. Os ônibus passam ligeiros pelos corredores, mas vão abarrotados de gente espremida feito fardo de reciclável. Não dá para ver dali, mas o metrô também está lotado nessa hora. Não há escapatória, todos os espaços estão ocupados e quase falta ar para respirar.

Tem quem mude de casa para viver mais perto do trabalho. Mas, essa não é uma alternativa acessível a todos. No caso de Ana Paula, é totalmente impossível. Cada semana ela trabalha num canto diferente da cidade e, às vezes, vai além dos limites geográficos da capital. Gerente de promoção de eventos, ela cuida da instalação de estandes temporários e da contratação de pessoal. Começou como “mocinha” de promoção, foi subindo na carreira até chegar ao cargo que ocupa hoje. O que não muda desde sua época de promotora é a aparência, sempre com maquilagem e cabelo impecáveis, roupas alinhadas, sapatos bem cuidados e unhas perfeitas.

Depois de um dia todo em cima do salto, ela troca de sapatos para enfrentar a volta para casa; uma sapatilha é mais confortável. Essa semana, ela está trabalhando no shopping Morumbi e tem de voltar para o Tatuapé às 6 horas da tarde. Caminho difícil.

Depois de dois dias nessa rotina, ela suspira dentro do carro, olha em volta e se percebe impotente. Completamente incapaz de mudar seu destino, seu caminho, sua rota diária, sua vida. Como se a janela abrisse por um segundo e uma lufada fria entrasse repentinamente, ela treme e sente a espinha gelar pela certeza de que não há espaço para nada, nem ninguém. Rendida pelo devaneio que a toma naquele instante, ela vê os motoristas ao redor ficarem roxos e ofegantes. De uma hora para outra, todos começam a sufocar; até que o toque leve de uma buzina a faz despertar.

Primeira, segunda, ponto morto.

Novamente inerte em meio ao mar de carros que tomam cada centímetro da via que corre à beira de um rio podre e fétido, ela pensa….qual a razão para tudo isso? Estaremos fadados a disputar milimetricamente o mesmo asfalto? Devemos seguir nos desentendendo pela mesma vaga no estacionamento lotado do shopping no domingo? Viveremos confinados em apartamentos de 40 metros quadrados, criando um mini-peixe ornamental dentro de um mini-aquário porque é somente essa mini-biosfera que cabe?

Sua própria vida parece sem razão. Apartamento apertado. Dinheiro contado. Rotina estressante. Coração em frangalhos. Nervos falhos. Ana Paula sonhava com uma existência menos, ironicamente, solitária na cidade com densidade demográfica insana, mas eis que teimosamente o cotidiano em São Paulo se encaixava com perfeição ao título de Roberto Pompeu de Toledo, Capital da Solidão.

Primeira, segunda, ponto morto.

O semblante do motorista ao lado não anima quem o observa. A criança na janela do ônibus também parece entristecida. O pedestre atravessa correndo enquanto o trânsito não anda. O motociclista faz malabarismos para passar entre carros largos que transbordam pelas faixas e diminuem o espaço do corredor imaginário.

Primeira, segunda, ponto morto.

Espaço, espaço que falta, espaço escasso, espaço caro, espaço inacessível, espaço para mais um passageiro no ônibus, espaço para mais um carro na faixa, espaço para mais um bebê que nasce. Não temos. Não temos espaço, não temos vagas disponíveis, não temos tempo, não temos ar para respirar. Sufocamos.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Travessia incompleta

Chuva

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

A umidade noturna se misturava ao choro copioso e indisfarçado. As luzes pareciam piscar e o mundo estava fora do eixo. Um giro completo sobre si e a última mirada teve como perspectiva um ponto qualquer na semiescuridão do frio asfalto paulistano. Vozes ofegantes esvaziavam-se até findarem por completo…

***

Ana Laura frequentava uma livraria-pub ou pub-livraria ou balada-livraria ou balada com livros ou livros com balada. Era um desses lugares da moda entre as Aspicueltas e Fidalgas da vida, um espaço cult cheio de gente intelectualizada, intelectualizante ou nada disso. Livros eram lançados, depois uma banda tocava e todo mundo sorria; saraus eram organizados, depois uma banda tocava e todo mundo curtia; cafés filosóficos eram montados, depois uma banda tocava e todo mundo bebia.

A constante em todos os encontros era o que interessava a mocinha, não tão jovem nem tão velha. O líder da tal banda era um artista completo; tocava violão, cantava, compunha e – diziam os mais chegados – escrevia contos de ficção científica. Não era exatamente um Adônis, mas seu charme fascinava a audiência, seu sorriso preenchia os ambientes e seus olhos…. . Um único show, seguido de uma conversinha fiada, foi suficiente para ela cair de amores.

***

Além de regras e leis, existem orientações de conduta para o trânsito que objetivam manter os níveis de segurança no espaço urbano. Uma das dicas mais preciosas é a de nunca, jamais, em hipótese alguma guiar um carro quando houver qualquer alteração emocional. Não se trata, portanto, do ato de dirigir sob efeito de álcool ou qualquer tipo de entorpecente – o que é ilegal –, mas sim do alerta sobre os riscos de assumir o volante em estado alterado de humor. Tristeza demais pode causar acidente, raiva em excesso pode matar, por isso é preciso acalmar-se antes de entrar no carro e sair por ai.

Esse tipo de dica também é válida para pedestres. Uma desatenção momentânea e o caminhante desce para o meio-fio na mesma hora em que o motociclista corta pela esquerda; uma piscadela e o transeunte atravessa na faixa, mas sem observar o farol aberto para os carros; uma crise de choro e a pessoa se vê no meio de um cruzamento com carros buzinando e desviando com dificuldade.

***

Herbert era um artista já badalado e gostava disso. Os justos comentários elogiosos de amigos, entusiastas e mocinhas interessadas vinham a todo momento. Mas, ele sempre queria mais, mais afagos e mais carinho. Sua infinita necessidade de “amor” não podia ser suprida por Ana Laura, por mais que a moça estivesse apaixonada e se esforçasse para demonstrar. Na última discussão, ele queixou-se de nunca ter recebido uma única carta de amor, um único poema, uma estrofe qualquer ou verso solto.

Decidida a provar a injustiça da cobrança, Ana Laura juntou suas missivas, poesias e outras narrativas para entrega-las de uma vez só ao rapaz. Pouco antes da apresentação da banda, ela chegou com a bolsa cheia de palavras encantadas e o coração repleto de expectativas. Mas, Herbert não quis ouvi-la; era como se quisesse tornar tudo mais difícil para testar seu amor. Não teve jeito, a briga estava armada e a moça girou sobre os pés e, às pressas, ganhou a rua num desatino de dar pena. Apertava sua bolsa-sacola contra o peito como se carregasse um bem muito preciso; meia-dúzia de cartas perfumadas, dois ou três poemas e um conto romântico.

***

O grito esganiçado da borracha pressionada contra o asfalto umedecido pela garoa fina e intensa corta os ares noturnos e a freada brusca anuncia, como arauto macabro, o fim. Eu não a vi, ela atravessou na faixa, mas o farol estava verde pra mim. Meu Deus, o que foi que eu fiz? Se pudesse responder, Ana Laura diria, nada, você não fez nada; assim como ele não me ouviu, você não me viu e eu, eu não fui capaz de me fazer ouvir, nem tive o cuidado de me fazer ver.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

O trânsito a transformou, ou teria sido a vida?

Significado das placas de transito

 

Mara Rovida* 

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Sempre foi muito tímida. A menor possibilidade de exposição pública – mesmo que isso se resumisse a um pequeno grupo – fazia seu coração disparar, as mãos começavam a suar e o rosto ganhava um ardor avermelhado. Apesar disso, ela seguia adiante.

Beleza nunca foi seu forte e só aos trinta começaram a dizer que ela tinha seus encantos. Não sei se levou a sério alguma vez, mas certamente ficou envaidecida com um ou outro elogio. Era calma na maior parte do tempo, embora fosse fácil tira-la do sério.

No início de sua experiência como motorista, ficava receosa, com medo de cometer erros e ser julgada, xingada ou coisa do tipo. Talvez por vaidade, talvez pela timidez que conduzia seus batimentos cardíacos a uma velocidade impensável, talvez pelas duas coisas; o fato é que não queria errar a marcha e nem a arrancada na presença de ninguém. Era como uma pequena aprendiz que se esforça por mostrar bom desempenho. Mas, o trânsito pode ser impiedoso.

Sua calma e gentileza – sempre dava passagem, ajudava os demais a mudar de faixa e respeitava os motociclistas – eram vistas como se incompetência e tacanhez fossem. Logo percebeu que era atacada toda vez que punha em prática uma ação de delicadeza com um pedestre ou outro motorista qualquer. Isso a irritava.

Começou a se sentir oprimida por uma forma de dirigir que a ela se impunha. Não teve jeito, passou a agir como os demais. Não aceitava fechadas e não era condescendente com quem queria cortar a fila ou não sinalizava quando pretendia mudar de faixa. Xingava, perseguia quem a desrespeitava e discutia, com os vidros fechados, claro.

Se estivesse apressada, costurava pelas avenidas, buzinava, dava sinal de luz e tudo mais que podia ser feito. Não tinha paciência com quem vacilava para entrar numa rua ou parecia não saber ao certo para onde ir. De repente, passou a oprimir quem não tinha a mesma postura dura e decidida que ela adotou. Como numa reverberação impensada e irracional, a moça tímida se transformava numa brigona que partia para o embate ao menor sinal de desrespeito, ou o que julgava assim ser. Seu coração ainda pulsava forte e parecia querer escapar do peito, mas agora não mais pela timidez.

A raiva, o incômodo com o outro só a deixavam quando ela saía da posição de motorista. Ao descer do carro, ela voltava a corar, as mãos continuavam suando e ela seguia achando que não era bonita, mas se esforçava para ser, pelo menos, competente no trabalho. Como pedestre, ela podia sonhar, mesmo que fosse julgada por isso, afinal muitos acham desprezível essa mania que algumas pessoas têm de, pela imaginação, se transportar para outro mundo, para uma vida alternativa. Apesar de tanta pressão externa para se enquadrar, como pedestre, ela ainda não tinha se rendido, seguia com seus doces devaneios e suas memórias inventadas.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

“Sai aê”

rua

Mara Rovida*

 

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Houve um tempo em que a rua não era sinônimo de trânsito, de fluxo de pessoas e veículos, era um lugar de encontro, um espaço para a molecada extravasar toda a energia típica de quem mal contava dois dígitos na idade.

Íamos para a escola de manhã cedinho. Na hora do almoço, a chegada em casa era marcada pelo cheiro que pairava na vizinhança, um misto de arroz temperado e carne grelhada com água e sabão usados para lavar garagens e calçadas. Costumava dizer que minha rua tinha cheiro de quintal lavado e tinha mesmo.

Todo mundo comia rapidinho, os meninos mais abastados, estudantes de colégios particulares, e os demais que, como eu e meu irmão, estudavam em escolas da rede estadual nas redondezas. Depois da comida, um tempo para a ajuda nas arrumações da casa, uns instantes para a tarefa escolar e logo a campainha tocava. Lá de fora alguém gritava, “sai aê”. Essas duas palavrinhas, ditas assim como se fossem uma coisa só, davam a deixa, é hora de ir pra rua.

Ali a molecada podia correr, brincar, brigar e, principalmente, fazer coisa que não devia. Na rua de paralelepípedos, cabiam bicicleta, skate, patins, patinete (não motorizado), carrinho de rolimãs, cachorro, gato, tartaruga fujona – até hoje ninguém entende como ela conseguia passar despercebida a cada vez que o portão era aberto –, bolas de todos os tipos e muito barulho.

Os terrenos baldios murados nunca foram interditos de fato. Bastava um pouco de criatividade para romper a barreira, literalmente. Certa vez, o muro simplesmente veio abaixo e até hoje o dono do cavalo que ali ficava procura os responsáveis por abrir aquela fenda por onde o equino fugiu.

Todo dia era assim, “sai aê”, queimada, futebol, vôlei, mãe da mula, taco, safaris pelos terrenos, fogueira, rojões e morteiros para irritar o cachorro do vizinho, pega-pega, esconde-esconde – sempre dava vontade de fazer xixi na hora de esconder – e descidas radicais pela rua íngreme que, vez ou outra, acabavam num encontrão com o paralelepípedo mais próximo.

Quase não passava gente, quem dirá carros. A rua era nossa, até que alguma mãe chamava para o café da tarde. Como uma nuvem de gafanhotos, todos ao mesmo tempo entravámos pela porta da vez e, em alguns minutos, fazíamos o bolo e a dúzia de bananas desaparecer. Na mesma velocidade, corríamos de volta para o mundo lá de fora.

Os portões ficavam quase sempre abertos. Entrava-se para um xixi rápido e uma água. No final da jornada, um caldo preto escorria pelas têmporas de cada um. Sujos como filhotes de porcos depois de um banho de lama, atendíamos aos chamados de pais e mães para o jantar. Mesmo contrariados, seguíamos para o encerramento das casas. Os portões se fechavam naquele momento e só seriam abertos novamente no dia seguinte. Era tempo demais para esperar, afinal pra que dormir?

 

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

 

Casa de urubu

Mara Rovida*

 

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Um solavanco e paramos. Sinal sonoro e as portas abrem. Estouro de boiada em direção às escadas rolantes…desligadas, subimos assim mesmo. Segundo pavimento, catracas e saída. Mais escadas, mas agora são comuns.

Um degrau. Oia a lupa, oia a lupa. Outro degrau. Pra lê a bula do remédio. Outro degrau. Pra lê a bíblia. Outro degrau. Pra lê o jornal. Mais um degrau. Oia a lupa, oia lupa. Voz doce de menina mistura-se à imponência masculina. Caça-palavra, palavra cruzada, um real. Os sotaques se diversificam. Sufler, dois por cinco. As ofertas também. Amendoim quentinho; morangos cobertos com chocolate; trufa, um real.

A linha preta no entorno da saída da escada marca os territórios. Pra dentro da linha, os urubus podem prender, pra fora não. Segurança do metrô paulistano é imponente, usa uniforme negro e cassetete na cinta. Intimidam torcedor na saída do jogo, prendem ambulantes nas estações e trens. Mas, não podem agir da linha preta para fora.

Nessas ruas, apenas gente. Carro não passa, moto não entra, só pedestre, ambulante e pombas, muitas pombas. À sombra da catedral de abóbodas verdes, a vida ferve. Gente que passa, gente que vende, gente que procura….emprego, uma melhor sorte, uma carteira perdida ou a se perder.

Contraste sonoro, do lado de lá da soleira da porta imensa, o silêncio gelado do santuário romano; do lado de cá, o burburinho da vida urbana. Mais adiante, linha de trólebus, carros e motos. Do outro lado, um labirinto de ruas interditadas aos automotivos, só gente e muita gente.

Compro e vendo ouro. Atestado médico. Chapa do pulmão. Vaga para recepcionista….os  homens-placas e seus anúncios se misturam aos passantes. Uma roda se forma pra ver o encantador de cobras…meia hora depois e nada de cobra, ela não existe. Ao fundo, a trilha sonora andina e as freadas dos trólebus bem longe.

Parece que vai chover. Ninguém mais vende sufler, agora a oferta é única. Guarda-chuva, tem de cinco e de dez. A chuva começa, as ofertas aumentam e os pedestres correm.

Estação lotada. Fila pra passar a catraca. Aperto. A escada rolante desligada. Aperto. Um mar de gente. Aperto. Aqui dentro ninguém vende nada, é a casa dos urubus.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.