Duas rodovias, uma marginal e a carta

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Era para ser uma ação de praxe, apenas um ato burocrático, um documento necessário aos procedimentos do departamento de Recursos Humanos. Ela me disse de forma simples e didática, típico de professora acostumada a explicar tudo direitinho. Precisa escrever uma carta de próprio punho e me entregar. Na hora, apenas acenei com a cabeça e disse ok.

Avisei aos mais chegados que planejava colocar fim à costura da vida entre duas rodovias e uma marginal. Não estava dando conta e havia decidido permanecer do lado de lá do caminho dos tropeiros durante os dias úteis, reservando o trajeto entre as vias com nome de ex-presidente e a marginalizada expressa paulistana para os fins de semana. Todos pareciam concordar que seria a melhor decisão. É perigoso pegar essa Castelo Branco a noite. Você sai muito tarde. Já está vindo um dia na semana mesmo. Não vale a pena. É cansativo.

Devo concordar que todas aquelas falas faziam muito sentido. Estava tudo muito bem organizado, terminaria o semestre letivo cumprindo o compromisso assumido. Comunicado feito à coordenação, precisava preparar a missiva para formalizar o desfecho planejado e conversar com a direção. Tudo bem explicadinho, acertadinho, direitinho. Levaria a carta na semana seguinte.

Entre um feriado e outro, a missiva ia sendo organizada na cabeça. Qual o tom certo para finalizar um relacionamento desse tipo? Deveria pegar um modelo qualquer desses que abundam nas vias digitais? Não, definitivamente não. Queria uma redação adequada à situação e sem sombra de dúvidas aquele não era um texto de praxe. Não poderia ser. Ia me despedir de pessoas tão queridas, gentes coloridas, conservadores e idealistas que conviviam e transitavam nos corredores de jardins bem cuidados e céu povoado por pássaros mecânicos usados por quem evita o trânsito asfáltico. Não veria mais as salas em formato de aquário, descritas certa vez numa aula de redação, aconchegantes, bem iluminadas e que sempre suscitavam discussão sobre a temperatura do ar condicionado. Ficaria na memória gustativa o sabor do café com os colegas no espaço reservado aos doutos brincalhões que faziam certos coordenadores saírem de suas salas separadas para compartilhar um papo antes da aula. Não seria mais recepcionada pelo coro de olá, boa noite, boa tarde, bom descanso a cada chegada ou partida entoado pelas meninas da secretaria. Não iria mais solicitar uma visita do pessoal da técnica para dar um jeito nos equipamentos manhosos e na discordância da temperatura ideal para os estudos.

Essa cena tão rica ficaria isolada no canto direito da Marginal do Tietê, no sentido que leva para a casa da infância, a terra natal dos índios barrigudinhos. Não seria mais o caminho de todo dia ou de toda semana. A carta não parecia mais um simples ato burocrático diante de uma tal despedida.

O caminho interrompido não sairia da lembrança, mas ainda precisava colocar no papel, e de próprio punho, o ponto final da narrativa cheia de cores. Sem exageros, foi certamente uma passagem feliz. Da porta aberta em tempos ainda recentes até a decisão de agora, foram 5 semestres recheados de notas, avaliações, discussões, reflexões, desencontros, desacertos, reconciliações, pesquisas e muitas novas relações. Alguns lugares são mesmo habitados por pessoas que tornam a vida melhor, mesmo que o dinheiro falte ou que o trânsito seja cada vez pior. Quando se juntam gentes assim em número razoável e se tem a felicidade de participar desse encontro fica difícil dizer até mais ou até breve. Sempre se quer ficar mais um pouquinho, mais um semestre só, depois a gente vê.

Divagar e postergar para mais tarde não adiantaria. Então a missiva começou a ser feita e mais parecia um conto, uma crônica ou texto que o valha. Não poderia seguir a diante, precisava de uma ponderação, nem tão fria, mas também nem tão literária. Tinha de cumprir a praxe.

Um parágrafo para pedir licença, outro para a despedida e um terceiro para formalizar o pedido de demissão. Estava feito. Redação curta, de próprio punho e cheia de significado, ao menos para quem redigiu e encaminhou. Levada pelo caminho, como diriam os ingleses, known by heart, a missiva não despachada pois entregue em mãos selou o desfecho, tornou a literatura jornalismo e estabeleceu dead line para essa história.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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