Poder público é culpado pelas 189 mortes de motociclistas

Danilo Angrimani (*)

Nos primeiros seis meses do ano, morreram 189 motociclistas em São Paulo. No mesmo período, foram atropelados e mortos 248 pedestres e ainda 23 ciclistas perderam a vida. São números frios. Não se sabe quem está por trás deles. Eles morrem e se transformam em mera estatística. Desconhecemos sua história. Eram pais de família? Deixaram viúva? Morreram jovens? Foram pais que perderam seus filhos?

A estatística parece comprovar que a política de trânsito do suposto presidenciável João Dória fracassou. Ao aumentar os limites de velocidade, Dória teria sido o responsável pelo aumento das mortes. Mais uma vez, a briga entre PT e PSDB reaparece. Os petistas vão criticar o prefeito e os partidários do tucano vão dizer que a culpa é da imprudência.

Na prática, o poder público é sim responsável por todas essas mortes. As prefeituras fazem muito pouco para evitá-las. Fui motociclista. Fazia barbaridades no trânsito. Andava nos corredores em velocidade incompatível. Uma vez na avenida Rubem Berta estava no corredor, acelerando firme em direção ao Aeroporto de Congonhas, onde trabalhava. Chovia muito. Tempestade de verão. A visibilidade era limitada. Usava óculos de motociclista e capacete. Óculos, como se sabe, não têm limpador. Então, imagine o que eu conseguia enxergar pela frente.

Ao passar por baixo daquele viaduto sob a avenida Indianópolis, vi um pedestre, tentando atravessar a Rubem Berta. Preso entre as correntes incessantes de tráfego, ensopado, perdido ali no meio, o desgraçado esperava pela oportunidade de ser atropelado. Não devia ser um suicida, mas quem sabe…

Lembro que por um milagre da física quântica passei, em alta velocidade, entre ele e os carros que voavam baixo pela avenida. Foi uma fração de segundos. Um momento onde eu poderia ter atropelado e matado o sujeito. Em seguida, seria também atropelado pelos veículos que trafegavam acima de 90 km/h. Minha moto Yamaha 125 c/c viraria ferro-velho. Mas passei batido entre ele e os carros. Ninguém se feriu e fui em frente. Cheguei com os joelhos bambos no serviço.

Em outra oportunidade, fiz tantos cortes entre as faixas da avenida 23 de Maio, passando rente entre os milhares de veículos parados, que um senhor, dirigindo uma lambreta me seguiu e, ao estacionar minha moto na rua Libero Badaró, o lambretista parou ao meu lado e me mandou ter juízo. Ele me passou uma descompostura. Disse que eu dirigia como um maluco, que ia acabar matando uma criança, uma senhora, um pai de família. Esse cara fez algo que o poder público da minha época não fez e continua não fazendo. Ele me chamou à razão. Já o poder público é omisso. Vive escondido.

Por experiência própria, sei que esses motociclistas que vão morrer hoje são, em sua maioria, imprudentes. Não obedecem as regras elementares de trânsito. Trafegam em velocidades incompatíveis com as vias. Cometem barbaridades no trânsito: andam na contramão, desrespeitam faróis, destroem retrovisores e por aí vai. A lista é imensa e cansativa.

O problema é que ninguém liga para eles. A gente sabe que vai topar daqui a pouco com um motociclista caído, machucado, às vezes, morto. Se eu fosse poder público, se estivesse à frente de uma Secretaria de Trânsito, faria o papel daquele senhor de lambreta. É inadmissível deixar esses motociclistas à vontade, esperando só o momento deles estarem destruídos no asfalto para agir. E agir na forma de um caminhão de resgate dos bombeiros, que vai recolher os cacos.

Lembro do meu amigo Gerson, jornalista e professor, que morava perto da gente, em Brighton (Inglaterra). Gerson tinha uma bicicleta preta, bonita, impecável. O único problema da bicicleta é que ela não tinha farol. E sem farol você (de carro, moto, bicicleta) não circula à noite na Inglaterra. Toda vez que o Gerson saía à noite, era parado pela polícia. Os agentes o mandavam descer. Pediam documentos e o obrigavam a desmontar e voltar para casa, empurrando a bicicleta. Isso aconteceu umas seis vezes. Na sétima, Gerson passou na boa. Tinha comprado um farol.

Se o poder público funcionasse, o motociclista imprudente deveria ser parado, multado e obrigado a frequentar um curso de reciclagem. Em caso de reincidência, perderia a carta. A fiscalização precisaria também observar o estado das motos. A gente percebe moto com placa tão suja que não se consegue ver os números. Outras têm pneus sem ranhuras. Imagine frear em um dia chuvoso? A moto não para. Acredite. Já tive moto com pneu careca e sei que ela não para no asfalto molhado. No interior, dizem, é mais comum você encontrar gente sem carta dirigindo, do que devidamente habilitado. Na realidade, falta fiscalização ativa, presente, ostensiva.

O poder público deveria se preocupar com as pessoas; começar a existir em função dessa gente que paga impostos, que paga também seus salários. Enquanto as pessoas continuam morrendo em nossas ruas e avenidas, discute-se fundo partidário, se o PSDB deve sair ou não do governo, se o Lula faz campanha ou não, se o presidencialismo é melhor ou pior que o parlamentarismo… São pautas frívolas, de quem há muito tempo deixou de viver a realidade das ruas.

*Do blog: Jornalista sem jornal

 

https://jornalistasemjornal.blogspot.com.br/

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