Vírgula não é tempero

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

A pouca experiência os unia, embora ocupassem posições diferentes no cenário universitário. Os mais desatentos poderiam, duvidando de seus papeis distintos, tomá-los como colegas. Talvez por isso ou apesar disso, os encontros recheados de inspiração, inquietações, provocações, pautas e lides culminaram no mútuo afeto. Do diálogo cotidiano da sala de aula, saíram transbordando expectativas de futuro planejado.

Da primeira despedida até o reencontro, foram três semestres. Tempo suficiente para ganhar musculatura, conquistar mais afetos e, obviamente, aprimorar exigências. A maturidade nas intervenções, o olhar desperto e atento denunciavam o avançado momento de formação em suas diferentes trajetórias. Nada como a experiência unida à reflexão para lapidar a existência e as habilidades num fazer. O conhecimento compartilhado se solidificava e se tornava tangível em cada movimento ou pensamento expresso.

O grupo havia crescido ao longo do processo. Novos olhares com vozes díspares incrementaram o caldo robusto, apesar de pouco volumoso. Contrariando o padrão de desistências e consequente diminuição do número de alunos tipicamente observado nos cursos de graduação, a sala triplicou e a vivacidade se fez perceber pelo burburinho incontrolável interrompido apenas e tão somente pela curiosidade renovada. No último ano do bacharelado em jornalismo, ainda há o que se discutir em redação. Perplexos pelo fôlego da formação que parecia finalizada, foram desafiados pelo incômodo de perspectivas outras e, com força, pela responsabilidade da autoria.

Autoria é autonomia, mas é compromisso, é peso e liberdade ao mesmo tempo. O olhar acurado precisa de estímulo constante, a sensibilidade latente vai se mostrando e os afetos se renovando.

Num piscar de olhos, os laços anteriores se fortaleceram e novos se fizeram com a intensidade que só a paixão é capaz de despertar. Sentimento inspirado pela vocação, pela profissão escolhida. A moça diante da turma parecia a mesma, mas suas pernas já não bambeavam tanto quanto no primeiro encontro e agora saboreava as possibilidades de dinâmicas e improvisos. Um jogo aqui e outro ali, uma dinâmica hoje, um debate amanhã e o semestre parecia enfeitiçado por um relógio acelerado e um calendário desfolhado às pressas por algum açodado.

O fim da disciplina, regado a comidinhas, violão e cantoria, marcava outros desfechos. Entre TCCs e bancas, os futuros profissionais vestiam o figurino de jornalistas e caminhavam para o novo papel no palco da comunicação. A moça diante da turma também estava de partida. Seu caminho a levou para outras paragens, outras rodovias, outras vias expressas. A despedida cresceu em significado e o desenlace foi festivo, mas doído.

As últimas redações em forma de crônica, preciosidade jornalística, condensaram e concretizaram a teia de relações tecida naqueles encontros. Muitas mudanças promovidas pelo ouvido ainda mais apurado em busca da voz diversa e da voz que grita sem ser ouvida pela postura burocrática se mostravam nas últimas linhas escritas. A pluralidade ampliada se fazia em crônica ainda salpicada de vírgulas fora de lugar como se fossem tempero usado a gosto do freguês – mas essa é outra história**.

Entre abraços apertados, sorrisos e conversas que pareciam querer esticar o tempo, restava o desejo de boa sorte. Apenas na reserva da noite escura, fechada no universo particular de um automóvel, o misto de sensações se fez em liquidez salobra. A moça, também conhecida como prô, negou-se a dizer adeus, preferiu um até breve.

___________

**Ainda no primeiro encontro, lá no começo dessa narrativa, a aula de redação e apuração jornalísticas era iluminada pelo brilho no olhar, típico da descoberta. Os jovens alunos se tornavam focas e trabalhavam duro para aperfeiçoar o texto e a habilidade para investigar, descobrir e perguntar. Mas a maior barreira não eram as velhas técnicas comunicacionais com as quais se familiarizavam aos poucos, a dificuldade era o excesso de um miúdo elemento de texto, a vírgula.

Ela aparecia entre sujeito e verbo, entre verbo e complemento, aparecia quando menos se esperava e menos se gostaria. Virou piada e a frase dita no improviso se tornou jargão. Não esqueceram mais e fizeram questão de imprimir no presente de despedida a marca de um tempo compartilhado. A imagem não é ilustrativa, mas representativa: vírgula não é tempero.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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