Porta de escola

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Uniformes, mochilas, lancheiras e o burburinho vai se instalando. Portas de carro batem; crianças falam e riem ao mesmo tempo; o porteiro pede calma aos apressados que desatam a correr; a professora vai atrás de quem esqueceu o caderno sobre a carteira do quarto ano B; a inspetora avisa aos da perua, “o tio Paulo chegou”; a mãe adverte, “pega o agasalho, pode esfriar”.

Hora do almoço, hora do rush nas redondezas de qualquer escola. Uns chegam, enquanto outros saem.

Os pais levam e buscam seus rebentos e se acumulam durante mais ou menos meia hora em pouco espaço. Reproduzem a efervescência urbana; gente que chega a pé, de carro, de bicicleta, de ônibus, de perua (ou van). Falta espaço nas calçadas, falta espaço no portão, falta espaço na rua, falta espaço.

A faixa branca delimita o lugar das peruas escolares. Ali, elas param para o desembarque e embarque seguros. Entre os “tios” das peruas, um ex-caminhoneiro que deixou de carregar arroz para “puxar” menino; não dirige mais sua carreta graneleira, agora guia uma “kombosa” simpática. Ele chega e pega a fila das peruas. Tem meia dúzia pra entrar e outra dúzia pra ir embora. Saem uns, entram outros e ele segue no trecho.

O movimento cresce. Não tem lugar pra tanto carro. Começam a parar, rapidinho, em fila dupla e até tripla. “É só pro menino descer.” Ninguém mais passa, está tudo bloqueado e as crianças seguem correndo e o porteiro grita “sem correria, vai machucar”.

Quem não conhece se espanta com a quantidade de carros grandes e cada vez maiores. A coqueluche automobilística do momento, as SUVs ganharam fama de carro de família. São espaçosas, automáticas e muito confortáveis. Tem quem duvide da necessidade de um automóvel de quase duas toneladas para carregar um ser humano de 12 quilos, com pouco mais de um metro de altura. Mas, o fato é que elas caíram no gosto de pais e mães e se acumulam no aperto da entrada da escola.

De repente, um som se sobrepõe às vozes, às risadas, às batidas de portas. É o sinal da escola. Como num passe de mágica, os carros vão sumindo junto com as peruas; as pessoas vão desaparecendo. Chega um atrasado correndo e o porteiro avisa, “quase que não entra, o sinal já bateu”. A quietude vai ganhando força, mas ela não será eterna, em algumas horas tudo recomeça…um que corre com a mochila aberta e vai derramando o material pelo caminho, a perua que chega carregada de menino, o porteiro que adverte, os amigos que riem alto….

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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