Sem ponto final entre rodovias

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

O instante desatinado foi suficiente para estabelecer o silêncio quebrado, de lá para cá, apenas pela memória reavivada. Da fotografia ainda impressa à velha palheta colorida, as lembranças do sorriso generoso e das bobagens que faziam gargalhar são os instrumentos que restaram para romper a atmosfera provocando os ruídos da saudade.

A vida organizada e recortada em rodovias segue seu curso, num fluxo ininterrupto e que agrega novos percursos e novos personagens. Mas o ponto silenciador ainda faz parte do caminho de quem circula pelas manchas urbanas recortadas de estradas transformadas em vias expressas e congestionadas. O velho entroncamento que reúne o sul do país às paragens mineiras nos traz sempre um lembrete do seu ponto final, de seu último ato antes de sair de cena.

Em doze anos de memória exercitada, às vezes deixamos de lado a realidade relembrada e adentramos a imaginação vívida que tenta esticar sua trajetória. Não estamos mais no universo de períodos finalizados graficamente, imergimos no contínuo infinito que nem Saramago projetou. Num milésimo de segundo, o devaneio acalentador parece real e vemos novas fotografias bailando na memória do que nunca existiu: um casamento, talvez; um filho, quem sabe; um novo endereço, certamente; o mesmo dedilhar no violão, sem dúvidas; a boa e sem sentido prosa feita em versos vez ou outra, pode ser.

Passado o instante, este que não é decisivo e nem tem implicações tão pesarosas, olhamos para nós mesmos. Não estamos mais no mesmo lugar, não somos mais o mesmo enredo, mesmo assim ele sempre parece encaixar com perfeição no caminho que seguimos, nas história que ainda estamos escrevendo.

Apenas a musicalidade da saudade e da memória que se organiza no calendário. Porque hoje é 13 de março.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Por hora, o privilégio

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

* Mara Rovida

Descobriu cedo o mundo dividido e organizado pelas diferenças que separam, muitas vezes, segregam. Sabia-se mediano, com parcelas abaixo e outras acima. Reconhecia pelo cheiro seu lugar no mundo, seu espaço amistoso e confortável, suas regalias de pessoa média, com algum acesso e muita ambição.

Os primeiros brados foram aprendidos na escola. Com apoio de quem educa, mas não ensina. Quem paga tem direitos, quem recebe tem deveres. Assim a vida se organiza e as relações se orientam pelo Código de Defesa do Consumidor. Direitos e regras, definidos em lei, servem para defender um primeiro grito, ainda tímido, mas com respaldo.

Não demora para que o peito fique inflado e o ânimo inflamado. Na vida média, a oportunidade de ver de fora, de olhar de um ponto distanciado não tarda em aparecer. Dos velhos hábitos ocidentais, vislumbra modelos que parecem engajados, despojados e inovadores – mesmo que sua base seja o resgate de velhos padrões.

Na volta para casa, encontra outros medianos, talvez medíocres, que também experimentaram o velho mundo e sonham em trazer para as bandas de cá um pouco mais de civilidade. Num discurso desconectado historicamente, pensa ter descoberto um diálogo nunca antes observado, o norte que dita padrão e o sul que o copia porcamente.

De peito estufado e dedo em riste, emite sua mensagem em tom verborrágico e certeiro. Desqualifica apressadamente o contraditório. Justifica de pronto os deslizes. Segue exigindo sua verdade erguida por uma perspectiva sua, e apenas sua.

Teve um tempo que sua casa se ligava à escola pelo carro dos pais. O contato com o mundo se estruturava na assepsia de uma janela sempre fechada. Em algum momento, descobriu que poderia tomar o lugar do condutor e fez festa, foi pra festa e levou consigo os amigos e talvez um ou outro sonho de sujeito descuidado que atravessou seu caminho.

Hoje se paramenta para sair às ruas e demanda o modelo conhecido no outro lado do oceano. A cidade deve se curvar ao desejo desenfreado de seu olhar médio de sujeito medíocre. Seu direito imposto como vontade de estar acima de sua vida mediana vira outra coisa. Um privilégio a mais para quem nunca soube o que era um direito.

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Da baliza ao quase-atropelamento, uma história de amor em trânsito

Baliza

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

O domingo já chegava ao fim. A churrasqueira esfriava, enquanto músicas antigas eram escolhidas para fechar o dia de folga. Em meio às memórias de uma adolescência dançante, Daiane fez uma referência qualquer a seu quase-casamento. Como assim você quase casou?

A descoberta da história antiga fez o grupinho parar para ouvir a narrativa da moça que fazia piada de si mesma. Interpretando personagens reais, ela mais parecia contar uma grande anedota. Talvez isso diminuísse um pouco o impacto da memória doída que ela dizia superada.

***

Daiane estava na fila da baliza, na prova prática de direção que faz parte dos testes necessários para tirar a carteira de habilitação. Nervosa, é claro, ela aguardava sua vez de fazer a manobra que assombra aprendizes de motorista em todos os cantos do país. Quer um bombom? Automaticamente aceitou a oferta do belo rapaz, mas sem dar muita atenção. Não fica nervosa, vai dar tudo certo. O nervosismo atrapalha demais, então fica tranquila. Falar para ter calma é um ótimo jeito de deixar a pessoa ainda mais nervosa. Mas o açúcar do bombom parece ter surtido algum efeito.

A moça passou na prova e telefones foram trocados.

O rapaz tentou insistentemente marcar um encontro. Mas, durante um bom tempo, Daiane se esquivou, sempre tinha uma boa desculpa até que um dia, resolvi ver qual é que era e aceitei comer uma pizza com ele.

Na pizzaria, o amor foi azeitado e alguns meses depois os dois já estavam morando juntos.

Marcelo era capitão da Marinha Brasileira. Daiane trabalhava como auxiliar administrativa em um hospital público e ainda não tinha feito faculdade. Com 22 anos e uma família cheia de dificuldades financeiras, os planos de fazer um curso superior tiveram de ser adiados. Ele, natural de Belfort Roxo (RJ), vinha de uma família de posses. Sua mãe começou a questionar logo de início se aquele relacionamento era profícuo para seu rebento. Afinal, a nora ideal tinha de estar à altura do garboso oficial que ela chamava de filho.

Não demorou muito para que dona Amélia transformasse azeite em vinagre. Começou com uma ou outra investida dissimulada. Na ausência do filho, ela dizia seus desaforos e fazia pouco das origens de Daiane. Mas não estamos falando de uma mocinha de contos de fadas, enfeitada em fitas cor de rosa. No segundo ou terceiro despropósito da sogra-serpente, ela cuspiu meia dúzia de palavrões e falou duas ou três verdades que não me atrevo a repetir.

Pronto. Estava armada a confusão. Chamado às pressas para uma reunião urgente no Rio de Janeiro, o militar de boa patente partiu em cumprimento às ordens da oficial-matriarca.

O detalhe é que o chamado veio uma semana antes do matrimônio. Enquanto cuidava dos preparativos para o casório, Daiane viu seu noivo partir para os braços, digo, para o encontro com a mamãe. Dois dias depois, estava de volta a São Paulo. Com ar austero que forçava uma maturidade inexistente, ele anunciou o fim de tudo. Não te amo mais, não vai mais ter casamento. Ao voltar do trabalho, Daiane viu suas coisas embrulhadas em sacos pretos, desses que usamos para colocar o lixo. Impedida de entrar na casa, ela recolheu seus pertences ali mesmo na garagem.

Quem poderia engolir uma humilhação desse tipo? Pensou em explodir a casa, mas desistiu. Resolveu secar até a última gota do seu próprio volume morto. Mas o destino, esse fanfarrão, resolveu brincar com a moça esquentada. Um mês depois de sair carregando sua mudança de volta para a casa dos pais, Daiane esbarrou no capitão-bebê-chorão-da-mamãe. Marcelo seguia orgulhoso e pimpão em sua brilhosa moto importada por uma arborizada avenida da cidade. Com um canteiro central recheado de árvores altas que fazem boa sombra, a avenida é deliciosa para passeios de domingo. Mas, eis que logo atrás vinha Daiane pilotando o carro do pai. Quando se deu conta de quem era o motociclista ali na frente, ela encarnou o pateta-motorista e jogou o carro contra o rapaz. Marcelo só teve tempo de pular do veículo. Ele se abrigou no canteiro, enquanto ela acelerava. Você não é o bonzão, não é o maioral? Então, desce aqui. Eu vou te matar.

Logo fez plateia. Quem não gosta de um drama de amor? Chamaram a polícia e a viatura apareceu numa piscadela. Moça, se acalme, não faça isso. Não vale a pena. A fúria fazia o corpo franzino da jovem estremecer. Com a tez avermelhada pelo fogo da injúria sofrida, ela gesticulava e cuspia suas decepções, seus sonhos feitos em pedaços, sua humilhação. Ele me largou, me jogou fora, colocou minhas coisas em sacos de lixo.

A prova da baliza foi refresco perto do teste de nervos. Ainda sob efeito do descontrole emocional, ela voltou para casa, sem bombons-calmantes, sem juras de amor e com o tônus da alma comprometido.

***

Já faz tempo que ela dirige. Já faz tempo que ela não deseja atropelar ninguém. Já faz tempo que ela faz baliza em qualquer espaço. Mas, tenho minhas dúvidas se esse tempo foi suficiente para Daiane esquecer o azedume disfarçado de chocolate e azeitonas.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

“Sou piloto”, mas o carro é do papai

narguile

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Cruza. Acelera. Freia. Corta. Costura. Passa raspando. Muda de faixa. Vai para direita. Volta para esquerda. Pega um pedaço de acostamento. Causa perturbação por onde passa. Testa a sorte de cada dia. Diverte-se com os limites. Conduz no fio da navalha.

Quem se aproxima sente arrepios com o barulho ensurdecedor que mais parece um teste – de potência do sistema de som ou do aparelho auditivo de seus ocupantes. O carro é sisudo, um sedã importado, sem xênon, tunagem de qualquer espécie, nem rodas extravagantes, mas os ocupantes ressignificam a caranga emprestada.

Durante a semana, o carro é interdito para o jovem da casa. Serve de meio de transporte para o pai, verdadeiro dono do veículo. Mas, no sábado à noite, o papai libera a chave. A molecada se anima, a chegada na balada de hoje vai ser top.

Todos prontos para o início das festividades; cabelos devidamente espetados, perfumes importados, roupas de grife, narguilé e seus apetrechos preparados, dinheiro na carteira, espinhas disfarçadas, vamos onde está a mulherada!

No caminho, os pneus vão se gastando numa proporção improvável para o curto trajeto. As barbeiragens não resultam em acidente, sabe se lá como. Sorte? Talvez. Mas é possível garantir que um encontro repentino com o azar não aconteça na próxima esquina?

Costurando. Sorrindo. Esquentando no caminho. Goles. Baforadas. Empolgação.

O ritual é repetido religiosamente aos sábados (às vezes, às sextas-feiras também). Ao chegar na balada, uma cantada de pneus mais caprichada. A fumaça se esparrama pela rua. Abafamos!

Entrada garantida no recinto nebuloso, esfumaçado (artificialmente, graças à lei antifumo), barulhento e escuro. Desce uma garrafa de vodka e muito energético, ordenam logo de cara. Entre goladas geladas e sorrisos plastificados, alguém sugere, uma dose de Bourbon. O copo chega e acaba, impreterivelmente, misturado ao energético adocicado.

Num olhar atento, de sujeito crítico, a sentença, garotos bobos, não sabem dirigir, não sabem se divertir, não sabem beber. Quem estragaria um destilado cuidadosa e demoradamente envelhecido com essa porcaria de energético?

Ao menos com a lei seca, o piloto da vez fica só no energético. Teria a glicose poder de alterar os reflexos do rapazote? Pelo sim pelo não, quando um sedã sisudo passar costurando, no sábado à noite, melhor manter distância, afinal nunca se sabe quando acaba a sorte de um “piloto” de fim de semana.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Não há espaço. Sufocamos

parabrisa_molhado

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Buzinas abafadas pelos vidros fechados e respingados de garoa. Faz tempo que nosso inverno não vem assim tão úmido. O céu parece pesar como se fora teto de construção com pé direito reduzido. O vento frio e molhado pelas gotículas que caem incessantes fazem os ossos doerem. Por isso, Ana Paula segue com as janelas fechadas e o ar condicionado programado para aquecer.

As ruas, avenidas, vias expressas estão repletas de carros e motos. Os ônibus passam ligeiros pelos corredores, mas vão abarrotados de gente espremida feito fardo de reciclável. Não dá para ver dali, mas o metrô também está lotado nessa hora. Não há escapatória, todos os espaços estão ocupados e quase falta ar para respirar.

Tem quem mude de casa para viver mais perto do trabalho. Mas, essa não é uma alternativa acessível a todos. No caso de Ana Paula, é totalmente impossível. Cada semana ela trabalha num canto diferente da cidade e, às vezes, vai além dos limites geográficos da capital. Gerente de promoção de eventos, ela cuida da instalação de estandes temporários e da contratação de pessoal. Começou como “mocinha” de promoção, foi subindo na carreira até chegar ao cargo que ocupa hoje. O que não muda desde sua época de promotora é a aparência, sempre com maquilagem e cabelo impecáveis, roupas alinhadas, sapatos bem cuidados e unhas perfeitas.

Depois de um dia todo em cima do salto, ela troca de sapatos para enfrentar a volta para casa; uma sapatilha é mais confortável. Essa semana, ela está trabalhando no shopping Morumbi e tem de voltar para o Tatuapé às 6 horas da tarde. Caminho difícil.

Depois de dois dias nessa rotina, ela suspira dentro do carro, olha em volta e se percebe impotente. Completamente incapaz de mudar seu destino, seu caminho, sua rota diária, sua vida. Como se a janela abrisse por um segundo e uma lufada fria entrasse repentinamente, ela treme e sente a espinha gelar pela certeza de que não há espaço para nada, nem ninguém. Rendida pelo devaneio que a toma naquele instante, ela vê os motoristas ao redor ficarem roxos e ofegantes. De uma hora para outra, todos começam a sufocar; até que o toque leve de uma buzina a faz despertar.

Primeira, segunda, ponto morto.

Novamente inerte em meio ao mar de carros que tomam cada centímetro da via que corre à beira de um rio podre e fétido, ela pensa….qual a razão para tudo isso? Estaremos fadados a disputar milimetricamente o mesmo asfalto? Devemos seguir nos desentendendo pela mesma vaga no estacionamento lotado do shopping no domingo? Viveremos confinados em apartamentos de 40 metros quadrados, criando um mini-peixe ornamental dentro de um mini-aquário porque é somente essa mini-biosfera que cabe?

Sua própria vida parece sem razão. Apartamento apertado. Dinheiro contado. Rotina estressante. Coração em frangalhos. Nervos falhos. Ana Paula sonhava com uma existência menos, ironicamente, solitária na cidade com densidade demográfica insana, mas eis que teimosamente o cotidiano em São Paulo se encaixava com perfeição ao título de Roberto Pompeu de Toledo, Capital da Solidão.

Primeira, segunda, ponto morto.

O semblante do motorista ao lado não anima quem o observa. A criança na janela do ônibus também parece entristecida. O pedestre atravessa correndo enquanto o trânsito não anda. O motociclista faz malabarismos para passar entre carros largos que transbordam pelas faixas e diminuem o espaço do corredor imaginário.

Primeira, segunda, ponto morto.

Espaço, espaço que falta, espaço escasso, espaço caro, espaço inacessível, espaço para mais um passageiro no ônibus, espaço para mais um carro na faixa, espaço para mais um bebê que nasce. Não temos. Não temos espaço, não temos vagas disponíveis, não temos tempo, não temos ar para respirar. Sufocamos.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Travessia incompleta

Chuva

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

A umidade noturna se misturava ao choro copioso e indisfarçado. As luzes pareciam piscar e o mundo estava fora do eixo. Um giro completo sobre si e a última mirada teve como perspectiva um ponto qualquer na semiescuridão do frio asfalto paulistano. Vozes ofegantes esvaziavam-se até findarem por completo…

***

Ana Laura frequentava uma livraria-pub ou pub-livraria ou balada-livraria ou balada com livros ou livros com balada. Era um desses lugares da moda entre as Aspicueltas e Fidalgas da vida, um espaço cult cheio de gente intelectualizada, intelectualizante ou nada disso. Livros eram lançados, depois uma banda tocava e todo mundo sorria; saraus eram organizados, depois uma banda tocava e todo mundo curtia; cafés filosóficos eram montados, depois uma banda tocava e todo mundo bebia.

A constante em todos os encontros era o que interessava a mocinha, não tão jovem nem tão velha. O líder da tal banda era um artista completo; tocava violão, cantava, compunha e – diziam os mais chegados – escrevia contos de ficção científica. Não era exatamente um Adônis, mas seu charme fascinava a audiência, seu sorriso preenchia os ambientes e seus olhos…. . Um único show, seguido de uma conversinha fiada, foi suficiente para ela cair de amores.

***

Além de regras e leis, existem orientações de conduta para o trânsito que objetivam manter os níveis de segurança no espaço urbano. Uma das dicas mais preciosas é a de nunca, jamais, em hipótese alguma guiar um carro quando houver qualquer alteração emocional. Não se trata, portanto, do ato de dirigir sob efeito de álcool ou qualquer tipo de entorpecente – o que é ilegal –, mas sim do alerta sobre os riscos de assumir o volante em estado alterado de humor. Tristeza demais pode causar acidente, raiva em excesso pode matar, por isso é preciso acalmar-se antes de entrar no carro e sair por ai.

Esse tipo de dica também é válida para pedestres. Uma desatenção momentânea e o caminhante desce para o meio-fio na mesma hora em que o motociclista corta pela esquerda; uma piscadela e o transeunte atravessa na faixa, mas sem observar o farol aberto para os carros; uma crise de choro e a pessoa se vê no meio de um cruzamento com carros buzinando e desviando com dificuldade.

***

Herbert era um artista já badalado e gostava disso. Os justos comentários elogiosos de amigos, entusiastas e mocinhas interessadas vinham a todo momento. Mas, ele sempre queria mais, mais afagos e mais carinho. Sua infinita necessidade de “amor” não podia ser suprida por Ana Laura, por mais que a moça estivesse apaixonada e se esforçasse para demonstrar. Na última discussão, ele queixou-se de nunca ter recebido uma única carta de amor, um único poema, uma estrofe qualquer ou verso solto.

Decidida a provar a injustiça da cobrança, Ana Laura juntou suas missivas, poesias e outras narrativas para entrega-las de uma vez só ao rapaz. Pouco antes da apresentação da banda, ela chegou com a bolsa cheia de palavras encantadas e o coração repleto de expectativas. Mas, Herbert não quis ouvi-la; era como se quisesse tornar tudo mais difícil para testar seu amor. Não teve jeito, a briga estava armada e a moça girou sobre os pés e, às pressas, ganhou a rua num desatino de dar pena. Apertava sua bolsa-sacola contra o peito como se carregasse um bem muito preciso; meia-dúzia de cartas perfumadas, dois ou três poemas e um conto romântico.

***

O grito esganiçado da borracha pressionada contra o asfalto umedecido pela garoa fina e intensa corta os ares noturnos e a freada brusca anuncia, como arauto macabro, o fim. Eu não a vi, ela atravessou na faixa, mas o farol estava verde pra mim. Meu Deus, o que foi que eu fiz? Se pudesse responder, Ana Laura diria, nada, você não fez nada; assim como ele não me ouviu, você não me viu e eu, eu não fui capaz de me fazer ouvir, nem tive o cuidado de me fazer ver.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

“Sai aê”

rua

Mara Rovida*

 

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Houve um tempo em que a rua não era sinônimo de trânsito, de fluxo de pessoas e veículos, era um lugar de encontro, um espaço para a molecada extravasar toda a energia típica de quem mal contava dois dígitos na idade.

Íamos para a escola de manhã cedinho. Na hora do almoço, a chegada em casa era marcada pelo cheiro que pairava na vizinhança, um misto de arroz temperado e carne grelhada com água e sabão usados para lavar garagens e calçadas. Costumava dizer que minha rua tinha cheiro de quintal lavado e tinha mesmo.

Todo mundo comia rapidinho, os meninos mais abastados, estudantes de colégios particulares, e os demais que, como eu e meu irmão, estudavam em escolas da rede estadual nas redondezas. Depois da comida, um tempo para a ajuda nas arrumações da casa, uns instantes para a tarefa escolar e logo a campainha tocava. Lá de fora alguém gritava, “sai aê”. Essas duas palavrinhas, ditas assim como se fossem uma coisa só, davam a deixa, é hora de ir pra rua.

Ali a molecada podia correr, brincar, brigar e, principalmente, fazer coisa que não devia. Na rua de paralelepípedos, cabiam bicicleta, skate, patins, patinete (não motorizado), carrinho de rolimãs, cachorro, gato, tartaruga fujona – até hoje ninguém entende como ela conseguia passar despercebida a cada vez que o portão era aberto –, bolas de todos os tipos e muito barulho.

Os terrenos baldios murados nunca foram interditos de fato. Bastava um pouco de criatividade para romper a barreira, literalmente. Certa vez, o muro simplesmente veio abaixo e até hoje o dono do cavalo que ali ficava procura os responsáveis por abrir aquela fenda por onde o equino fugiu.

Todo dia era assim, “sai aê”, queimada, futebol, vôlei, mãe da mula, taco, safaris pelos terrenos, fogueira, rojões e morteiros para irritar o cachorro do vizinho, pega-pega, esconde-esconde – sempre dava vontade de fazer xixi na hora de esconder – e descidas radicais pela rua íngreme que, vez ou outra, acabavam num encontrão com o paralelepípedo mais próximo.

Quase não passava gente, quem dirá carros. A rua era nossa, até que alguma mãe chamava para o café da tarde. Como uma nuvem de gafanhotos, todos ao mesmo tempo entravámos pela porta da vez e, em alguns minutos, fazíamos o bolo e a dúzia de bananas desaparecer. Na mesma velocidade, corríamos de volta para o mundo lá de fora.

Os portões ficavam quase sempre abertos. Entrava-se para um xixi rápido e uma água. No final da jornada, um caldo preto escorria pelas têmporas de cada um. Sujos como filhotes de porcos depois de um banho de lama, atendíamos aos chamados de pais e mães para o jantar. Mesmo contrariados, seguíamos para o encerramento das casas. Os portões se fechavam naquele momento e só seriam abertos novamente no dia seguinte. Era tempo demais para esperar, afinal pra que dormir?

 

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.