Micronarrativas de espera

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

A distância não era longa, mas não sabia quanto tempo demoraria para chegar. Achei que seria mais fácil do que na semana passada, afinal a faixa exclusiva para ônibus começou a funcionar na segunda-feira. E lá estava ela, livre para os coletivos, sem carros, sem motos, sem ninguém.
Chego no ponto e espero. Olho no horizonte e nem sinal do ônibus. Olho em volta, uma garota mestiça se distrai ao celular e parece gostar do que vê naquela telinha minúscula. Dedos ágeis num teclado sem teclas, corpo levemente curvado e apoiado na estrutura metálica imunda que “nos protege” enquanto aguardamos. Mais atrás, sentado sobre o que deveria ser o encosto do banco, um homem lia um clássico. Não consegui ver o título, apenas o nome do autor em letras douradas na lombada da capa, Balzac. O rapaz deveria ter uns 35 anos, cabelo bagunçado, calça jeans um tanto surrada e portava uma bolsa estilo carteiro. Não sei porque, mas achei que fosse professor…..e o ônibus não vinha.
Passada a curiosidade sobre os dois companheiros de espera, vejo que ao lado da faixa exclusiva, os carros se amontoam e vagarosamente se deslocam. Os motoristas olham com cobiça para a pista livre e nada do ônibus. Começo a me preocupar com o horário. Foi então que eu vi, fixado no muro ali atrás, um papel amarelo. Era uma folha de sulfite comum. Chego mais perto. Apenas um parágrafo. Não se trata de propaganda, é apenas um parágrafo:
“Reduzido a sujeito indeterminado de frase afirmativa com sentido negativo, ele soube, não era amado. O que queria? A música do poetinha. Mas, teve de se contentar com o hit de sucesso da Blitz.”
Já tinha ouvido falar dessas micronarrativas espalhadas pela cidade. Já tinha até me deparado com uma ou outra. Mas, essa era instigante. O que teria acontecido? O cara ouviu sua amada se referir a ele como um sujeito qualquer? Teria ele ouvido o que não deveria? E depois, o que ele fez? Seria aquela uma versão contemporânea de um romance balzaquiano? Agora os homens de trinta sofrem o que o autor francês contou sobre as mulheres de sua época? Seria o professor ali sentado o autor daquele parágrafo?
Não tive como evitar. Olhei fixamente para o cartaz e depois para os dois companheiros de espera e….nada! Nenhuma reação. Não pareciam se importar com meu interesse naquela folha amarela. Olhei em volta e tudo parecia como antes, os carros se arrastando e a faixa exclusiva vazia. Quem teria escrito aquilo?
Talvez não importasse muito a autoria do texto. O que eu queria mesmo era achar um arranjo para aquela ideia incompleta. Me incomodava aquele pedaço de história, sem começo certo e com desfecho incompleto. Mergulhei num turbilhão de pensamentos e me distrai por alguns minutos, quando percebi um movimento entre os que dividiam o ponto comigo….o ônibus. Subimos no coletivo e quando o motorista arrancou ainda olhei mais uma vez aquela folha amarela. Quem a teria colocado ali?

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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