No subsolo do trânsito paulistano

Mara Rovida* 

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

O sinal de abertura das portas soa. As pessoas descem, sempre apressadas, e seguem para as escadas que dão acesso a saída da estação. Os que vão embarcar permanecem ao lado da porta e na primeira oportunidade pulam para dentro do vagão do metrô. Estamos na “estação terminal Tucuruvi”, como indica pelo autofalante aquela voz vinda do além.

O destino final do trem é a estação Jabaquara, essa é a linha azul que liga o norte ao sul da cidade (ao menos uma parte dessas áreas). Eu devo descer no Paraíso, estação que liga a linha azul à verde. Vou para a avenida Paulista e por isso tenho de pegar a outra linha. Se não tiver nenhum problema, chego em 25 minutos ou um pouquinho mais, nada muito garantido.

Durante a viagem fico com sono, por isso, deixo de lado o texto da aula de hoje. Mas, então, o sono passa e começo a prestar atenção numa conversa ali do lado. Uma moça, bem arrumada, fala com um rapaz metido numa calça social meio larga, uma camisa azul e uma gravata escura um tanto torta. A moça está com uma calça bem justa e um salto alto surrado – deve andar bastante –, está bem maquiada e fala sem parar, mexendo as pulseiras de metal e o relógio branco gigante atados ao braço que se mostra pela camisa meia manga. Os dois discutem as mudanças do Código Civil e falam em provas. Um sorriso surge, com certeza, no canto da minha boca: “são estagiários de direito”, penso imediatamente. Espero mais um pouco para ter certeza e…..lá está a identificação positiva: descem na Praça da Sé. O que tem demais nisso? Ali, no entorno daquela estação, está o Fórum João Mendes e vemos advogados e estagiários andando por aquelas bandas ao longo do dia. Como sei que são estagiários? Sapatos surrados, discussão sobre detalhes do Código Civil em vez de sapatos bem cuidados e debate sobre ações e clientes.

Gosto de matar o tempo durante as viagens de metrô brincando de adivinhar o que as pessoas fazem, quem são elas e para onde vão. Com o tempo, a gente fica “craque” nisso e alguns “personagens” de tão característicos nem graça tem adivinhar porque é fácil saber o que são. Os atendentes de telemarketing, por exemplo, andam em grupos e, em geral, transitam pela região da Avenida Paulista. Eles ficam tão “impregnados” daquelas fórmulas de atendimento depois de uma jornada de trabalho que acabam falando entre eles mais ou menos daquele mesmo jeitinho que tratam os “clientes” do ‘call center’. Além disso, eles adoram contar uns para os outros histórias engraçadas e estressantes do dia de trabalho e sempre reproduzem o que falaram, como falaram e o que ouviram durante as conversas. É fácil reconhecer esse pessoal.

No metrô também tem muita gente simples que trabalha com serviço braçal, empregadas domésticas, faxineiras e gente que fica o dia todo numa mesinha fazendo serviço burocrático. Tem aqueles que carregam marmita naquelas bolsinhas compridas e estreitas e aqueles que levam o material da escola ou da faculdade e, saindo do trabalho, vão para mais uma jornada, a dos estudos. Gente que surge de todas as entradas do vagão, alguns falando alto, outros dormindo em pé….engraçado, todos parecidos, mas bem diferentes. Eles vão e vem e eu cheguei na minha estação, Brigadeiro. A moça ali do lado vai descer mais adiante, nas Clínicas, está com calça e sapatos brancos, deve trabalhar em alguma unidade do Hospital das Clínicas. Pelo jeito é enfermeira, porque se fosse médica….

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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