Vírgula não é tempero

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

A pouca experiência os unia, embora ocupassem posições diferentes no cenário universitário. Os mais desatentos poderiam, duvidando de seus papeis distintos, tomá-los como colegas. Talvez por isso ou apesar disso, os encontros recheados de inspiração, inquietações, provocações, pautas e lides culminaram no mútuo afeto. Do diálogo cotidiano da sala de aula, saíram transbordando expectativas de futuro planejado.

Da primeira despedida até o reencontro, foram três semestres. Tempo suficiente para ganhar musculatura, conquistar mais afetos e, obviamente, aprimorar exigências. A maturidade nas intervenções, o olhar desperto e atento denunciavam o avançado momento de formação em suas diferentes trajetórias. Nada como a experiência unida à reflexão para lapidar a existência e as habilidades num fazer. O conhecimento compartilhado se solidificava e se tornava tangível em cada movimento ou pensamento expresso.

O grupo havia crescido ao longo do processo. Novos olhares com vozes díspares incrementaram o caldo robusto, apesar de pouco volumoso. Contrariando o padrão de desistências e consequente diminuição do número de alunos tipicamente observado nos cursos de graduação, a sala triplicou e a vivacidade se fez perceber pelo burburinho incontrolável interrompido apenas e tão somente pela curiosidade renovada. No último ano do bacharelado em jornalismo, ainda há o que se discutir em redação. Perplexos pelo fôlego da formação que parecia finalizada, foram desafiados pelo incômodo de perspectivas outras e, com força, pela responsabilidade da autoria.

Autoria é autonomia, mas é compromisso, é peso e liberdade ao mesmo tempo. O olhar acurado precisa de estímulo constante, a sensibilidade latente vai se mostrando e os afetos se renovando.

Num piscar de olhos, os laços anteriores se fortaleceram e novos se fizeram com a intensidade que só a paixão é capaz de despertar. Sentimento inspirado pela vocação, pela profissão escolhida. A moça diante da turma parecia a mesma, mas suas pernas já não bambeavam tanto quanto no primeiro encontro e agora saboreava as possibilidades de dinâmicas e improvisos. Um jogo aqui e outro ali, uma dinâmica hoje, um debate amanhã e o semestre parecia enfeitiçado por um relógio acelerado e um calendário desfolhado às pressas por algum açodado.

O fim da disciplina, regado a comidinhas, violão e cantoria, marcava outros desfechos. Entre TCCs e bancas, os futuros profissionais vestiam o figurino de jornalistas e caminhavam para o novo papel no palco da comunicação. A moça diante da turma também estava de partida. Seu caminho a levou para outras paragens, outras rodovias, outras vias expressas. A despedida cresceu em significado e o desenlace foi festivo, mas doído.

As últimas redações em forma de crônica, preciosidade jornalística, condensaram e concretizaram a teia de relações tecida naqueles encontros. Muitas mudanças promovidas pelo ouvido ainda mais apurado em busca da voz diversa e da voz que grita sem ser ouvida pela postura burocrática se mostravam nas últimas linhas escritas. A pluralidade ampliada se fazia em crônica ainda salpicada de vírgulas fora de lugar como se fossem tempero usado a gosto do freguês – mas essa é outra história**.

Entre abraços apertados, sorrisos e conversas que pareciam querer esticar o tempo, restava o desejo de boa sorte. Apenas na reserva da noite escura, fechada no universo particular de um automóvel, o misto de sensações se fez em liquidez salobra. A moça, também conhecida como prô, negou-se a dizer adeus, preferiu um até breve.

___________

**Ainda no primeiro encontro, lá no começo dessa narrativa, a aula de redação e apuração jornalísticas era iluminada pelo brilho no olhar, típico da descoberta. Os jovens alunos se tornavam focas e trabalhavam duro para aperfeiçoar o texto e a habilidade para investigar, descobrir e perguntar. Mas a maior barreira não eram as velhas técnicas comunicacionais com as quais se familiarizavam aos poucos, a dificuldade era o excesso de um miúdo elemento de texto, a vírgula.

Ela aparecia entre sujeito e verbo, entre verbo e complemento, aparecia quando menos se esperava e menos se gostaria. Virou piada e a frase dita no improviso se tornou jargão. Não esqueceram mais e fizeram questão de imprimir no presente de despedida a marca de um tempo compartilhado. A imagem não é ilustrativa, mas representativa: vírgula não é tempero.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

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Duas rodovias, uma marginal e a carta

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Era para ser uma ação de praxe, apenas um ato burocrático, um documento necessário aos procedimentos do departamento de Recursos Humanos. Ela me disse de forma simples e didática, típico de professora acostumada a explicar tudo direitinho. Precisa escrever uma carta de próprio punho e me entregar. Na hora, apenas acenei com a cabeça e disse ok.

Avisei aos mais chegados que planejava colocar fim à costura da vida entre duas rodovias e uma marginal. Não estava dando conta e havia decidido permanecer do lado de lá do caminho dos tropeiros durante os dias úteis, reservando o trajeto entre as vias com nome de ex-presidente e a marginalizada expressa paulistana para os fins de semana. Todos pareciam concordar que seria a melhor decisão. É perigoso pegar essa Castelo Branco a noite. Você sai muito tarde. Já está vindo um dia na semana mesmo. Não vale a pena. É cansativo.

Devo concordar que todas aquelas falas faziam muito sentido. Estava tudo muito bem organizado, terminaria o semestre letivo cumprindo o compromisso assumido. Comunicado feito à coordenação, precisava preparar a missiva para formalizar o desfecho planejado e conversar com a direção. Tudo bem explicadinho, acertadinho, direitinho. Levaria a carta na semana seguinte.

Entre um feriado e outro, a missiva ia sendo organizada na cabeça. Qual o tom certo para finalizar um relacionamento desse tipo? Deveria pegar um modelo qualquer desses que abundam nas vias digitais? Não, definitivamente não. Queria uma redação adequada à situação e sem sombra de dúvidas aquele não era um texto de praxe. Não poderia ser. Ia me despedir de pessoas tão queridas, gentes coloridas, conservadores e idealistas que conviviam e transitavam nos corredores de jardins bem cuidados e céu povoado por pássaros mecânicos usados por quem evita o trânsito asfáltico. Não veria mais as salas em formato de aquário, descritas certa vez numa aula de redação, aconchegantes, bem iluminadas e que sempre suscitavam discussão sobre a temperatura do ar condicionado. Ficaria na memória gustativa o sabor do café com os colegas no espaço reservado aos doutos brincalhões que faziam certos coordenadores saírem de suas salas separadas para compartilhar um papo antes da aula. Não seria mais recepcionada pelo coro de olá, boa noite, boa tarde, bom descanso a cada chegada ou partida entoado pelas meninas da secretaria. Não iria mais solicitar uma visita do pessoal da técnica para dar um jeito nos equipamentos manhosos e na discordância da temperatura ideal para os estudos.

Essa cena tão rica ficaria isolada no canto direito da Marginal do Tietê, no sentido que leva para a casa da infância, a terra natal dos índios barrigudinhos. Não seria mais o caminho de todo dia ou de toda semana. A carta não parecia mais um simples ato burocrático diante de uma tal despedida.

O caminho interrompido não sairia da lembrança, mas ainda precisava colocar no papel, e de próprio punho, o ponto final da narrativa cheia de cores. Sem exageros, foi certamente uma passagem feliz. Da porta aberta em tempos ainda recentes até a decisão de agora, foram 5 semestres recheados de notas, avaliações, discussões, reflexões, desencontros, desacertos, reconciliações, pesquisas e muitas novas relações. Alguns lugares são mesmo habitados por pessoas que tornam a vida melhor, mesmo que o dinheiro falte ou que o trânsito seja cada vez pior. Quando se juntam gentes assim em número razoável e se tem a felicidade de participar desse encontro fica difícil dizer até mais ou até breve. Sempre se quer ficar mais um pouquinho, mais um semestre só, depois a gente vê.

Divagar e postergar para mais tarde não adiantaria. Então a missiva começou a ser feita e mais parecia um conto, uma crônica ou texto que o valha. Não poderia seguir a diante, precisava de uma ponderação, nem tão fria, mas também nem tão literária. Tinha de cumprir a praxe.

Um parágrafo para pedir licença, outro para a despedida e um terceiro para formalizar o pedido de demissão. Estava feito. Redação curta, de próprio punho e cheia de significado, ao menos para quem redigiu e encaminhou. Levada pelo caminho, como diriam os ingleses, known by heart, a missiva não despachada pois entregue em mãos selou o desfecho, tornou a literatura jornalismo e estabeleceu dead line para essa história.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Sem ponto final entre rodovias

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

O instante desatinado foi suficiente para estabelecer o silêncio quebrado, de lá para cá, apenas pela memória reavivada. Da fotografia ainda impressa à velha palheta colorida, as lembranças do sorriso generoso e das bobagens que faziam gargalhar são os instrumentos que restaram para romper a atmosfera provocando os ruídos da saudade.

A vida organizada e recortada em rodovias segue seu curso, num fluxo ininterrupto e que agrega novos percursos e novos personagens. Mas o ponto silenciador ainda faz parte do caminho de quem circula pelas manchas urbanas recortadas de estradas transformadas em vias expressas e congestionadas. O velho entroncamento que reúne o sul do país às paragens mineiras nos traz sempre um lembrete do seu ponto final, de seu último ato antes de sair de cena.

Em doze anos de memória exercitada, às vezes deixamos de lado a realidade relembrada e adentramos a imaginação vívida que tenta esticar sua trajetória. Não estamos mais no universo de períodos finalizados graficamente, imergimos no contínuo infinito que nem Saramago projetou. Num milésimo de segundo, o devaneio acalentador parece real e vemos novas fotografias bailando na memória do que nunca existiu: um casamento, talvez; um filho, quem sabe; um novo endereço, certamente; o mesmo dedilhar no violão, sem dúvidas; a boa e sem sentido prosa feita em versos vez ou outra, pode ser.

Passado o instante, este que não é decisivo e nem tem implicações tão pesarosas, olhamos para nós mesmos. Não estamos mais no mesmo lugar, não somos mais o mesmo enredo, mesmo assim ele sempre parece encaixar com perfeição no caminho que seguimos, nas história que ainda estamos escrevendo.

Apenas a musicalidade da saudade e da memória que se organiza no calendário. Porque hoje é 13 de março.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, docente do PPGCC da Uniso e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Por hora, o privilégio

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

* Mara Rovida

Descobriu cedo o mundo dividido e organizado pelas diferenças que separam, muitas vezes, segregam. Sabia-se mediano, com parcelas abaixo e outras acima. Reconhecia pelo cheiro seu lugar no mundo, seu espaço amistoso e confortável, suas regalias de pessoa média, com algum acesso e muita ambição.

Os primeiros brados foram aprendidos na escola. Com apoio de quem educa, mas não ensina. Quem paga tem direitos, quem recebe tem deveres. Assim a vida se organiza e as relações se orientam pelo Código de Defesa do Consumidor. Direitos e regras, definidos em lei, servem para defender um primeiro grito, ainda tímido, mas com respaldo.

Não demora para que o peito fique inflado e o ânimo inflamado. Na vida média, a oportunidade de ver de fora, de olhar de um ponto distanciado não tarda em aparecer. Dos velhos hábitos ocidentais, vislumbra modelos que parecem engajados, despojados e inovadores – mesmo que sua base seja o resgate de velhos padrões.

Na volta para casa, encontra outros medianos, talvez medíocres, que também experimentaram o velho mundo e sonham em trazer para as bandas de cá um pouco mais de civilidade. Num discurso desconectado historicamente, pensa ter descoberto um diálogo nunca antes observado, o norte que dita padrão e o sul que o copia porcamente.

De peito estufado e dedo em riste, emite sua mensagem em tom verborrágico e certeiro. Desqualifica apressadamente o contraditório. Justifica de pronto os deslizes. Segue exigindo sua verdade erguida por uma perspectiva sua, e apenas sua.

Teve um tempo que sua casa se ligava à escola pelo carro dos pais. O contato com o mundo se estruturava na assepsia de uma janela sempre fechada. Em algum momento, descobriu que poderia tomar o lugar do condutor e fez festa, foi pra festa e levou consigo os amigos e talvez um ou outro sonho de sujeito descuidado que atravessou seu caminho.

Hoje se paramenta para sair às ruas e demanda o modelo conhecido no outro lado do oceano. A cidade deve se curvar ao desejo desenfreado de seu olhar médio de sujeito medíocre. Seu direito imposto como vontade de estar acima de sua vida mediana vira outra coisa. Um privilégio a mais para quem nunca soube o que era um direito.

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Perdi uma crônica

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista. Doutora pela ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista. Doutora pela ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Taurinos são seres ruminantes. Mastigam seus sentimentos, engolem, regurgitam, fazem malabarismos bucais para enfim processá-los. Com lentidão e força, muitas vezes explosiva, sentimentos ou pensamentos são subitamente expressos. Surgem assim insights maravilhosos de um tipo bem particular de mastigação, a bovina.

Sem glamour, sem magia, é assim que a particularidade desses seres ruminantes torna tangíveis inventos, mesmo os intelectuais ou líricos. Foi num processo desses que a crônica cheia de impressões e boas perspectivas sobre a arte da docência foi elaborada.

Um texto simples e poético. Uma visão singela, mas cheia de entusiasmo pela carreira retomada depois de anos de pausa para a dedicação do item segundo, aquele depois do hífen – já desaconselhado pelas normas ainda em debate da nossa língua – de professor-pesquisador.

Redação rabiscada em papel de rascunho e cuidadosamente dobrada para não escapar pelo caminho. Colocada na bolsa, esta sim mágica por caber o mundo, parecia segura. Dias se passaram, o pequeno pedaço de ideia seguia firme pelas Marginais e Rodovias. Agarrava-se para não sair voando em cada entrada ou saída de carteiras, bolachas, garrafinhas d’água, canetas, agendas ou qualquer outro acessório de uso obrigatório e até compulsório.

Não esquecida, apenas adiada. A redação final seria, enfim, digitada numa página brilhante de tela inteligente. Mas, misteriosamente, o rascunho poético de prosa empolgada havia sumido. A síntese digestiva da taurina professora não estava mais em seu rascunho de registro.

Nunca havia perdido uma ideia assim, já sintetizada. Um sentimento crescente foi se formando no canto da boca, desperdício.

* Mara Rovida é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação pela USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Da baliza ao quase-atropelamento, uma história de amor em trânsito

Baliza

Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

O domingo já chegava ao fim. A churrasqueira esfriava, enquanto músicas antigas eram escolhidas para fechar o dia de folga. Em meio às memórias de uma adolescência dançante, Daiane fez uma referência qualquer a seu quase-casamento. Como assim você quase casou?

A descoberta da história antiga fez o grupinho parar para ouvir a narrativa da moça que fazia piada de si mesma. Interpretando personagens reais, ela mais parecia contar uma grande anedota. Talvez isso diminuísse um pouco o impacto da memória doída que ela dizia superada.

***

Daiane estava na fila da baliza, na prova prática de direção que faz parte dos testes necessários para tirar a carteira de habilitação. Nervosa, é claro, ela aguardava sua vez de fazer a manobra que assombra aprendizes de motorista em todos os cantos do país. Quer um bombom? Automaticamente aceitou a oferta do belo rapaz, mas sem dar muita atenção. Não fica nervosa, vai dar tudo certo. O nervosismo atrapalha demais, então fica tranquila. Falar para ter calma é um ótimo jeito de deixar a pessoa ainda mais nervosa. Mas o açúcar do bombom parece ter surtido algum efeito.

A moça passou na prova e telefones foram trocados.

O rapaz tentou insistentemente marcar um encontro. Mas, durante um bom tempo, Daiane se esquivou, sempre tinha uma boa desculpa até que um dia, resolvi ver qual é que era e aceitei comer uma pizza com ele.

Na pizzaria, o amor foi azeitado e alguns meses depois os dois já estavam morando juntos.

Marcelo era capitão da Marinha Brasileira. Daiane trabalhava como auxiliar administrativa em um hospital público e ainda não tinha feito faculdade. Com 22 anos e uma família cheia de dificuldades financeiras, os planos de fazer um curso superior tiveram de ser adiados. Ele, natural de Belfort Roxo (RJ), vinha de uma família de posses. Sua mãe começou a questionar logo de início se aquele relacionamento era profícuo para seu rebento. Afinal, a nora ideal tinha de estar à altura do garboso oficial que ela chamava de filho.

Não demorou muito para que dona Amélia transformasse azeite em vinagre. Começou com uma ou outra investida dissimulada. Na ausência do filho, ela dizia seus desaforos e fazia pouco das origens de Daiane. Mas não estamos falando de uma mocinha de contos de fadas, enfeitada em fitas cor de rosa. No segundo ou terceiro despropósito da sogra-serpente, ela cuspiu meia dúzia de palavrões e falou duas ou três verdades que não me atrevo a repetir.

Pronto. Estava armada a confusão. Chamado às pressas para uma reunião urgente no Rio de Janeiro, o militar de boa patente partiu em cumprimento às ordens da oficial-matriarca.

O detalhe é que o chamado veio uma semana antes do matrimônio. Enquanto cuidava dos preparativos para o casório, Daiane viu seu noivo partir para os braços, digo, para o encontro com a mamãe. Dois dias depois, estava de volta a São Paulo. Com ar austero que forçava uma maturidade inexistente, ele anunciou o fim de tudo. Não te amo mais, não vai mais ter casamento. Ao voltar do trabalho, Daiane viu suas coisas embrulhadas em sacos pretos, desses que usamos para colocar o lixo. Impedida de entrar na casa, ela recolheu seus pertences ali mesmo na garagem.

Quem poderia engolir uma humilhação desse tipo? Pensou em explodir a casa, mas desistiu. Resolveu secar até a última gota do seu próprio volume morto. Mas o destino, esse fanfarrão, resolveu brincar com a moça esquentada. Um mês depois de sair carregando sua mudança de volta para a casa dos pais, Daiane esbarrou no capitão-bebê-chorão-da-mamãe. Marcelo seguia orgulhoso e pimpão em sua brilhosa moto importada por uma arborizada avenida da cidade. Com um canteiro central recheado de árvores altas que fazem boa sombra, a avenida é deliciosa para passeios de domingo. Mas, eis que logo atrás vinha Daiane pilotando o carro do pai. Quando se deu conta de quem era o motociclista ali na frente, ela encarnou o pateta-motorista e jogou o carro contra o rapaz. Marcelo só teve tempo de pular do veículo. Ele se abrigou no canteiro, enquanto ela acelerava. Você não é o bonzão, não é o maioral? Então, desce aqui. Eu vou te matar.

Logo fez plateia. Quem não gosta de um drama de amor? Chamaram a polícia e a viatura apareceu numa piscadela. Moça, se acalme, não faça isso. Não vale a pena. A fúria fazia o corpo franzino da jovem estremecer. Com a tez avermelhada pelo fogo da injúria sofrida, ela gesticulava e cuspia suas decepções, seus sonhos feitos em pedaços, sua humilhação. Ele me largou, me jogou fora, colocou minhas coisas em sacos de lixo.

A prova da baliza foi refresco perto do teste de nervos. Ainda sob efeito do descontrole emocional, ela voltou para casa, sem bombons-calmantes, sem juras de amor e com o tônus da alma comprometido.

***

Já faz tempo que ela dirige. Já faz tempo que ela não deseja atropelar ninguém. Já faz tempo que ela faz baliza em qualquer espaço. Mas, tenho minhas dúvidas se esse tempo foi suficiente para Daiane esquecer o azedume disfarçado de chocolate e azeitonas.

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.

Uma guerra urbana

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Mara Rovida*

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo

Quem trabalha com transporte de mercadorias e passageiros, quem presta serviços in loco, quem cobre o tema, quem trabalha diretamente nas ruas e avenidas da urbes entende bem a comparação. O trânsito brasileiro se tornou uma espécie de guerra e ir pra rua pode ter significado semelhante a seguir para o front.

As discussões a respeito dos índices de mortalidade no trânsito se concentram em dois aspectos fundamentais desse cenário macabro, a imprudência das pessoas e a má-formação de condutores, ciclistas e pedestres. Essa dupla tem certamente seu peso nos resultados e precisa, obviamente, ser levada em consideração. Mas, é um erro resumir o problema a esses dois aspectos, apesar de sua relevância.

Falhas na sinalização, má conservação das vias públicas, demora no socorro de vítimas, entre outras situações contribuem de forma robusta para a manutenção das estatísticas assombrosas. Como exemplo, podemos usar a vítima mais corriqueira, que continua sendo o motociclista. Engana-se quem acredita que isso se deva estritamente aos malabarismos e loucuras praticadas sobre duas rodas. Muitos acidentes com motos são provocados por terceiros (outros condutores, pedestres, ciclistas e também por obstáculos nas vias). Na última divulgação do Datasus, que se refere às ocorrências registradas em 2012, dos 7.849 casos de mortes de motociclistas, 2.763 foram provocados pelo próprio motociclista, o restante teve interferência de terceiros.

Os números do Datasus são baseados nos óbitos registrados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Esses números não compreendem a totalidade dos casos porque muitas vítimas não chegam a ser socorridas. Assim, mesmo que assustador, o número oficial – de 46 mil mortes em 2012 – ainda é menor do que o montante real de vidas ceifadas diariamente nas ruas e avenidas das cidades brasileiras.

 

Detalhes dessas estatísticas podem ser consultados no documento Mapa da Violência, assinado pelo pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz:

http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2012/mapa2012_transito.pdf

 

* Mara Rovida é jornalista, doutoranda no PPGCOM da ECA-USP e membro do Grupo de Pesquisa do CNPQ Comunicação e Sociedade do Espetáculo.